SOCIEDADE DIGITAL, SOCIEDADE DE CONTROLE: ENSAIO A PARTIR DOS ESCOMBROS DA SOCIEDADE ANALÓGICA | Por João Ohara - Revista Práxis Missional
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SOCIEDADE DIGITAL, SOCIEDADE DE CONTROLE: ENSAIO A PARTIR DOS ESCOMBROS DA SOCIEDADE ANALÓGICA | Por João Ohara

“Todo mundo é Big Brother e prisioneiro – em um só. A tecnologia digital aperfeiçoou o Panóptico de Bentham”.

– Byung-Chul Han

A revolução digital afetou profundamente a estrutura das sociedades modernas, talvez até mais do que a prensa de Gutenberg no século XV, ou o rádio e o cinema no fim do século XIX. Gilles Deleuze já havia notado em 1990 que a sociedade disciplinar estudada por Michel Foucault estava gradualmente dando lugar à sociedade do controle. Nessa nova organização do poder, os espaços de confinamento (a escola, a fábrica, o quartel) dão lugar à modulação. O corpo, que antes ia da casa para a escola e ocupava nesta um ponto específico no espaço, passa agora a estar sujeito 24h aos diferentes regimes de produção, de maneira contínua: passamos da aula expositiva de 50 minutos para os vídeos curtos, repetíveis e sempre disponíveis do YouTube; das provas bimestrais no papel e das perguntas discursivas para as avaliações contínuas e “objetivas”, corrigidas agora por um computador. Se antes o corpo passava por etapas descontínuas (da casa para a escola, da escola para o quartel, do quartel para a fábrica…), cada uma com seus preceitos ortopédicos (isso é, de correção do corpo), hoje ele está continuamente sujeito às demandas do mercado – “não podemos parar de aprender”, “é preciso se reinventar”, “não podemos nos tornar obsoletos”. É dessa sociedade que fala Byung-Chul Han em No Enxame (Deleuze, 2010; Foucault, 2008; Han, 2017).

Se há alguns anos podíamos nos incomodar com o enfado da multiplicação de logins e senhas em todos os websites e serviços nos quais ingressávamos, hoje o novo registro está a um clique de distância: “Conectar com a sua conta Google”, “Entre com o Facebook”. O garantidor da sua identidade não é mais a textura da pele nas pontas dos dedos, nem a senha de acesso. Essa verificação é terceirizada, consistindo agora em uma resposta positiva ou negativa dos servidores de grandes corporações tecnológicas. Quem diz aos serviços digitais quem sou eu, agora, é o Google ou o Facebook. Inversamente, quem eu sou se torna cada vez mais o produto do armazenamento de todas as minhas escolhas digitais e o processamento desses dados (o famoso Big Data) através de algoritmos que as empresas mantêm trancados a sete chaves. Passar de um website a outro – atividade aparentemente descontínua – esconde nas linhas de código de fundo o exercício contínuo dos trackers, programas desenvolvidos para monitorar as atividades do usuário e oferecer uma experiência digital individualizada.

Acontece que o indivíduo da sociedade de controle não é mais o indivíduo da sociedade disciplinar. Ele não é mais o corpo individual que precisa ser moldado, nem a ovelha de um rebanho que precisa ser guiado. Isso porque ele já não é capaz de formar aquilo que os filósofos políticos chamavam de “corpo social”. Como diz Han, “o enxame digital não constitui uma massa porque nenhuma alma – nenhum espírito – lhe habita. O espírito junta e une. Em contraste, o enxame digital é composto de indivíduos isolados” (Han, 2017, p. 10). A dispersão das identidades nos guetos, de que já nos alertava Deleuze, levanta um problema grave para a organização coletiva. O sistema de classes perde sua soberania e precisa disputar as consciências com outros eixos de identificação corporal – a cor, o sexo, o gênero, a orientação sexual, o lugar de nascimento. Para Han, “os que estão sujeitos à economia neoliberal não constituem um nós que seja capaz de ação coletiva” (Han, 2017, p. 13).

Não por coincidência, alguns temas se entrelaçam quando pensamos com Han sobre os efeitos do digital no mundo contemporâneo: dispersão de identidade, imperativo da transparência, sociedade de performance, vigilância – a que poderíamos acrescentar o problema da obsolescência e do imperativo de atualização (Pereira & Araújo, 2019). O mundo digital traz mais do que a exacerbação de tendências que os pais da sociologia já viam no mundo moderno do capitalismo industrial. Mudamos também a nossa relação com o real: “Quando confrontados com a realidade, que nos choca como algo imperfeito, nós fugimos para o reino das imagens. Hoje, nós não usamos a religião tanto quanto as tecnologias de otimização para confrontar a realidade dos corpos, do tempo, da morte e assim por diante. O meio digital está desfactizando o mundo” (Han, 2017, p. 29).

As vidas perfeitas das redes sociais, os objetos perfeitos do comércio eletrônico, os funcionários perfeitos das palestras de coaching. A experiência humana analógica só pode ser uma versão tosca da projeção digital, invertendo as referências do mundo. É preciso curtir mais – enjoy the moment – e, ao mesmo tempo, produzir mais – to create content – em uma maquinaria de movimento perpétuo que transforma lazer e prazer em trabalho e em produto.[1] É por isso que “o princípio da performance afasta o elemento lúdico e o transforma de volta em trabalho. Agora, jogadores se dopam e se exploram até que estejam destruídos. A era digital é um tempo não de lazer, mas de performance e conquista” (Han, 2017, p. 33).

Não é surpresa alguma a explosão das palestras motivacionais, dos livros de autoajuda e dos anúncios de coaches. Transformado em um empreendedor de si mesmo, o trabalhador já não interrompe seu expediente ao voltar para casa. Sentado no sofá, assistindo à TV, ao seu serviço de streaming favorito ou à série baixada via Pirate Bay, esse indivíduo não abandonou a empresa ao fechar a porta do escritório. “Por causa de sua mobilidade, [os aparatos digitais] tornam possível uma exploração que prova ser ainda mais eficiente ao transformar todo espaço em espaço de trabalho – e todo o tempo em expediente” (Han, 2017, p. 34). O empreendedor precisa gerir seu tempo para atingir o sucesso. Precisa otimizar sua rotina, espremendo de cada segundo a energia produtiva que o encharca. Sob as rédeas de si mesmo, esse novo trabalhador-empreendedor-de-si busca conhecimento para atingir suas metas: dicas de organização do tempo e do espaço, palavras de motivação espiritual, a exaltação de características como “resiliência”, “flexibilidade”, “adaptabilidade”.

Não é surpresa, também, o esfarelamento das narrativas que davam sentido às grandes unidades do século XX – nação, classe, comunidade. As linhas do tempo das redes sociais se aproximam do sonho do Cronista Ideal. Elas registram atomicamente tudo aquilo que aconteceu (ou que se diz ter acontecido), mas não articulam enredos. Não articulam porque não podem articular: enredos dependem de eventos que só adquirem significado no futuro – “ninguém podia descrever [a Guerra dos Trinta Anos] em 1618 – ou em qualquer momento antes de 1648 – como ‘a Guerra dos Trinta Anos’” (Danto, 1962, p. 155). Mas as linhas do tempo não têm tempo para o passado. Só para o presente. A cada minuto, os usuários publicam cerca de 300 horas de vídeos no YouTube. Diferentes YouTubers competem diariamente pela atenção de seus assinantes, e poucos usuários parecem permanecer na mesma página por mais de 15 segundos (Haile, 2014).

O mundo digital não tem tempo para o tempo. Por isso, Han nota:

A palavra digital aponta para o dedo (digitus). Acima de tudo, o dedo conta. A cultura digital é baseada no dedo contador. Em contraste, a história significa recontar (recounting). Não é um assunto de contagem, que representa uma categoria pós-histórica. Nem a informação, nem os tweets produzem um todo, um relato. Uma linha do tempo também não reconta a história de uma vida; ela não fornece uma biografia. Linhas do tempo são aditivas, não narrativas. […] A dimensão narrativa está perdendo o sentido em uma escala enorme. Hoje, tudo se torna contável para que possa ser transformado para a linguagem da performance e da eficiência. Desse modo, o que quer que resista a ser contado deixa de ser. (Han, 2017, p. 35)

O tempo no mundo digital se mede nas frações de segundo. Enquanto escrevo este ensaio, um website me informa que a latência da minha conexão com a internet está em torno de 4 milissegundos. É quanto tempo leva para que meu computador faça um “pedido” e a “rede” responda com alguma informação. No mundo desenvolvido e para as classes abastadas do ocidente, a banda larga é um dado. Não está mais em jogo a quantidade de dados que você pode baixar a cada segundo, mas a latência da rede – isso é, o quão rápido você pode obter a resposta daquilo que procura na rede.

Na sanha pela velocidade e pelo imediato, o mundo digital também transforma nossa relação com o conhecimento. A grande promessa utópica da internet era a democratização do acesso ao conhecimento: qualquer um poderia acessar livremente aquilo que os outros haviam produzido em qualquer parte do globo. O conhecimento da humanidade seria perpetua e livremente acessível. A realidade da revolução digital parece deixar as grandes distopias do final do século XX a desejar: grandes conglomerados editoriais controlam o acesso ao conhecimento científico de ponta (a famosa paywall que impede que qualquer um possa ler as pesquisas médicas desenvolvidas nas grandes universidades, por exemplo); vicejam por toda parte as teorias da conspiração mais mirabolantes; o fenômeno das notícias falsas desestabiliza eleições por todo o mundo e ameaça os próprios fundamentos da democracia liberal, uma invenção poderosa da modernidade capitalista. Alguns setores da sociedade notam agora aquilo que filósofos e historiadores já alertavam há muito: informação não é conhecimento.

A informação é cumulativa e aditiva, enquanto a verdade é exclusiva e seletiva. […] O conhecimento não jaz logo ali à disposição. Não se pode simplesmente encontrá-lo por aí, como se pode encontrar informação. Via de regra, a experiência demorada o precede. Sua temporalidade é totalmente diferente da temporalidade da informação, que é extremamente curta e de curto prazo. (Han, 2017, p. 40)

O mundo digital não tem mais tempo para a lenta fermentação do saber na cabeça dos mandarins. O boom da ciência de dados e do Big Data indica justamente a busca pela máquina capaz de aprender (machine learning) e tomar decisões no lugar dos humanos. Os algoritmos e a estatística em substituição à heurística. É nessa tocada que um editor de revista de tecnologia pode declarar obsoletas as teorias do social: “Quem sabe por que as pessoas fazem o que fazem? O ponto é que elas o fazem e nós podemos rastrear e medir isso com uma fidelidade sem precedentes. Com dados suficientes, os números falam por si mesmos” (Anderson apud Han, 2017, p. 78).

Dos escombros da sociedade analógica, é difícil prever as consequências da nossa obsolescência. O retrato que Byung-Chul Han pinta é absolutamente estarrecedor, em que mesmo as grandes conquistas da medicina moderna mostram sua face mais amedrontadora – como Foucault já havia feito no século passado. Esse retrato se estende ainda por mais tantas páginas, em A Sociedade da Transparência, A Sociedade do Cansaço e Psicopolítica, seus outros livros. Em No Enxame, a utopia do mundo digital se vê despida, revelando-nos sua maquinaria de organização social. Mas mais do que uma denúncia dessa nova forma de vida que se impõe, esse retrato me parece um convite a pensar o sentido do humano em um mundo no qual o humano se torna cada vez mais dispensável (Humans, 2014).

Resta saber se encontraremos esse sentido nos escombros da sociedade analógica ou se o produziremos nas ranhuras cada vez menores das redes digitais.

[1] Sobre esta tendência de transformar todo tempo em “tempo de trabalho”, veja o próximo artigo deste número, de Jonathan Menezes, que tematiza a questão do “tempo” em Byung-Chul Han.

Referências bibliográficas
DANTO, Arthur C. Narrative Sentences. History and Theory, Middletown, v. 2, n. 2, p. 146-179, 1962.
DELEUZE, Gilles. Post-Scriptum sobre as sociedades de controle. In: idem. Conversações. Trad. de Peter Pál Pelbart. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2010.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Trad. de Raquel Ramalhete. 35ª ed. Petrópolis: Vozes, 2008.
HAILE, Tony. What you think you know about the web is wrong. Time, mar. 2014. Disponível em: https://time.com/12933/what-you-think-you-know-about-the-web-is-wrong/. Acesso em: 27 jul. 2019
HAN, Byung-Chul. In the Swarm: digital prospects. Trad. de Erik Butler. Cambridge (US): The MIT Press, 2017
HUMANS need not apply. [S.I.: s. n.], 2014. 1 vídeo (15 minutos). Publicado pelo canal CGP Grey. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7Pq-S557XQU. Acesso em: 28 jul. 2019.
PEREIRA, Mateus Henrique de Faria & ARAUJO, Valdei Lopes de. Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI. 2ª ed. Vitória: Editora Milfontes; Mariana: Editora da SBTHH, 2019.

Sobre o autor
João Ohara é Doutor em História pela UNESP/Assis e Professor de Teoria da História no Departamento de História da UFRJ.
Contato com o autor: ohara.hal@gmail.com

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