Revitalização de Igrejas: Oração, ensino e pastoreio | Por Ronaldo Lidório - Revista Práxis Missional
Site da Revista Práxis Missional. Publicação da Faculdade Teológica Sul Americana.
práxis, práxis missional, revista cristã, teologia, educação, ftsa, missão, missão integral, faculdade teológica sul americana,
732
post-template-default,single,single-post,postid-732,single-format-standard,woocommerce-no-js,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,qode_grid_1300,hide_top_bar_on_mobile_header,qode-content-sidebar-responsive,columns-4,qode-theme-ver-14.4,qode-theme-bridge,disabled_footer_bottom,wpb-js-composer js-comp-ver-5.4.7,vc_responsive

Revitalização de Igrejas: Oração, ensino e pastoreio | Por Ronaldo Lidório

Deus deseja que a Sua igreja seja saudável e, por isso, “…nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença” (Ef. 1.4).

Diante desse versículo, a motivação para a revitalização de igrejas enfraquecidas não é desenvolver um programa eclesiástico ou efetivar o plano de crescimento proposto pela liderança, mas perseguir o expresso desejo de Deus: ver a Sua igreja fortalecida em Cristo Jesus. A Sua vontade é que sejamos santos e irrepreensíveis e, assim, Ele trabalha dia e noite para que isto aconteça.

De certa forma, revitalização de igrejas é um processo que responde à seguinte pergunta: quais são os cenários de enfraquecimento da igreja local e como tratá-los? Neste capítulo, abordarei essas duas facetas. Primeiramente refletirei sobre os cenários de adoecimento e, logo depois, as propostas bíblicas de abordagem e cura.

1. Cenários de adoecimento

É importante observarmos que diferentes igrejas adoecem de diferentes formas. Em Apocalipse 2, vemos a descrição de Deus sobre algumas igrejas. A igreja em Éfeso possuía uma doutrina sólida, mas perdeu seu primeiro amor. O problema era a sua relação pessoal com Deus (Ap 2.2-6).

A igreja em Pérgamo era fiel e perseverante, mesmo na perseguição, mas possuía problemas doutrinários – seguindo a doutrina de Balaão (idolatria e prostituição). Sua fraqueza era a falta de pureza (Ap 2.13-16). A igreja em Tiatira era fiel no serviço, amor e fé, mas se deixou conduzir por falsas profecias e falsas revelações. O adoecimento corrompeu seu discernimento (Ap 2.19-24).

Também em nossos dias, diferentes igrejas enfrentam diferentes adoecimentos. Há igrejas cujo ponto de fraqueza é a rasa exposição da Palavra nos momentos de culto. Outras, mesmo com rico ensino bíblico, experimentam divisões e problemas de comunhão que carecem de uma intervenção pastoral mais específica.

Há aquelas que compreendem bem a Palavra, mas não a aplicam em casa, no trabalho e na vida. Outras que não compreendem bem a Palavra e inserem em seu meio valores sincréticos e mundanos. Algumas possuem um bom conhecimento bíblico sobre a igreja, mas não sobre a missão, o que faz com que percam o privilégio de ser sal que salga e luz que brilha. Há igrejas que são bíblicas, vivas e missionárias, mas não têm conseguido comunicar a verdade do evangelho aos seus próprios filhos, à nova geração.

Há igrejas totalmente dissociadas do bairro e da cidade onde se encontram, a ponto de poucos saberem de sua existência. E ainda outras se misturam com a sociedade a ponto de perder a sua própria identidade cristã, tornando-se mais influenciadas do que influenciadoras. Também existem igrejas movidas por eventos que, na ausência desses, desconstroem-se. Outras são a tal ponto centralizadas no pastor, e não em Cristo, que na ausência do ministro, a igreja se quebra.

Anos atrás visitei uma igreja Metodista em Toronto, Canadá. Era um lindíssimo templo, mas fui informado que estava a venda, pois a igreja havia morrido. Cerca de 30 anos antes aquela era uma congregação viva com quase 3.000 membros. Passou a ser pastoreada por um ministro que relativizava a singularidade do sacrifício de Cristo e que se opunha à evangelização. Em menos de 3 décadas a igreja se arrastava com sérios problemas doutrinários e de vivência cristã, contando com menos de 50 membros.

2. Identificando as fraquezas

Em um processo de revitalização de igrejas é crucial identificar as fraquezas, bem como as razões do adoecimento. O apóstolo Paulo encorajou, exortou, confrontou e também orientou igrejas locais, tanto pessoalmente, quanto por mensageiros, e ainda por meio de suas cartas, partindo do conhecimento ou discernimento do estado espiritual dos cristãos. Isso indica a necessidade de observação, oração e vivência com a igreja, a fim de colaborar para o seu crescimento em Cristo Jesus. Tenho percebido que a ausência de uma avaliação mais metódica da vitalidade da igreja local tem sido um dos principais obstáculos à sua revitalização.

Há diferentes formas de se avaliar a vitalidade de uma igreja local.[1] Identifico três mais evidentes na Palavra. A primeira avalia a presença de elementos bíblicos que definem a natureza da igreja, sobretudo os citados no livro de Atos: centralidade na Palavra, vida de oração, comunhão entre os irmãos, testemunho de vida, dedicada diaconia, verdadeiro culto a Deus e proclamação do evangelho (At 2.37-42; At 4.21-24; At 8.1-8; At 13.1-3).

A segunda avalia a vitalidade de uma igreja local a partir da vitalidade espiritual de seus membros, levando-se em consideração especialmente alguns ensinos de Paulo: firmeza na fé (1Co 16.13; Cl 2.5), união entre os irmãos (Rm 12.5; Ef 4.16), saúde familiar (Ef 5.33; 1Tm 3.12; Cl 3.20), culto público (Rm 12.1-2; 1Co 11.18-34) e prática missionária (Rm 15.20-21; Cl 1.28; 1Ts 1.5; Fp 2.25).

A terceira avalia a vitalidade organizacional em áreas como liderança, ordem de culto, mordomia e crescimento (1Tm 3; Rm 12; 1Co 14.26-40; Ml 3.8-12; Pv 3.9; Ef 4.28; At 2.47).

Portanto, entendo que a avaliação de uma igreja local, em busca de um diagnóstico de vitalidade, deve passar por critérios bíblicos e eclesiológicos que envolvam a natureza da igreja, a saúde espiritual de seus membros e a vitalidade organizacional.

Uma outra forma de avaliação seria identificar a presença ou ausência das práticas cristãs mais destacadas nas cartas paulinas e nos evangelhos. Há sete práticas repetidamente associadas à vitalidade espiritual: Palavra (leitura e meditação na Palavra de Deus); adoração (individual e coletiva; privada e pública); comunhão (andar com aqueles que amam e seguem a Cristo); oração (vida de diálogo com o Pai em nome do Filho); santidade (intensa e intencional busca por uma vida pura que agrada a Deus); boas obras (sofrer com quem sofre e abraçar o aflito e necessitado); e evangelização (proclamar quem é Jesus e o que Ele fez por nós).

Portanto, a Palavra, adoração, comunhão, oração, santidade, boas obras e evangelização apontam para uma vida cristã fortalecida em Cristo. Identificar a presença ou ausência dessas práticas na vida diária de uma igreja local é um bom exercício de avaliação de sua vitalidade. E sugiro que esse processo seja iniciado a partir da liderança da igreja.

3. O processo de revitalização

Ao observarmos a abordagem de Paulo perante igrejas enfraquecidas e doentes, três atitudes eram constantes: a) Paulo orava e convidava o povo a orar; b) ele ensinava a Palavra confrontando o pecado e consolando o povo; e c) também pastoreava e acompanhava os cristãos, enviando outros a fazerem o mesmo.

Portanto, creio que esse tripé representa, em boa medida, a abordagem de revitalização do apóstolo Paulo: oração, ensino e pastoreio. Logo, há de se destacar que um resultado direto de uma igreja revitalizada (ou em processo de revitalização) era a missão, tendo em vista que há uma profunda conexão entre a vitalidade espiritual e a missão. Quanto mais firmes estamos em Cristo, maior é o nosso envolvimento no propósito de Deus para a Sua igreja perante o mundo.

Como um brevíssimo estudo de caso, proponho observarmos uma enfermidade na igreja de Corinto e a abordagem do apóstolo Paulo.

Deve-se ressaltar, inicialmente, que a cidade de Corinto era uma importante cidade comercial na Grécia e em todo o mundo antigo. Os portos da cidade recebiam centenas de barcos com milhares de marinheiros a cada ano, além da cidade ser também conhecida por uma diversa religiosidade, abrigando 12 templos. A deusa Afrodite, principal divindade adorada, contava com cerca de mil sacerdotisas que se prostituíam para, com o dinheiro ganho, manter o templo e o culto. Aparentemente, boa parte do misticismo e clientelismo reinantes na cidade influenciava a igreja que ali nascera.

Enquanto em Éfeso, Paulo foi informado sobre sérios problemas na igreja em Corinto. Escreveu a primeira carta para abordar e tratar esses problemas em um processo de revitalização. Ele orou pela igreja (1 Co 1.4), ensinou a igreja por meio de suas cartas e a pastoreou, desejando vê-los (1 Co 16.5-7) e enviando Timóteo para acompanhá-los (1 Co 4.17, 16.10-11)

Paulo foi informado que havia na igreja grupinhos, divisões, e que tais grupos chegaram a se posicionar uns contra os outros abertamente. Essa é uma enfermidade que não apenas abate a igreja, mas possui alto potencial para expandir e corromper toda a comunidade.

Paulo teve conhecimento de todas as divisões, preocupando-se com o conflito interno e denunciando aqueles que diziam “sou de Paulo” ou “sou de Apolo” (1 Co 1.10-12). E perguntou “Acaso Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vocês? Foram vocês batizados em nome de Paulo?” (1 Co 1.13). Como parte do ensino e pastoreio, o apóstolo, após questionar e confrontar a igreja, conclui: “Quem se gloriar, glorie-se no Senhor” (1 Co 1.31)

Nessa passagem, vemos que Paulo identificou a desunião na igreja, a qual se baseava na preferência por lideranças. Identificar o adoecimento é essencial tanto para a oração, quanto para o ensino e pastoreio.

Divisões internas, competitividade e partidarismo geram pelo menos quatro manifestações nocivas: enfraquecem a fé dos salvos em Cristo Jesus; drenam as forças e energias da liderança da igreja; escandalizam o povo de Deus, especialmente os novos na fé; e levam a igreja a se desinteressar pela missão. (1 Co 3.1-9)

Na tríade oração, ensino e pastoreio, a proposta de Paulo para curar a enfermidade das divisões e partidarismo é o chamamento da igreja à centralidade de Cristo como líder, Cabeça da igreja.

Entretanto, a enfermidade da desunião não se manifestava apenas na divisão de grupos com suas preferências de liderança, mas também na inveja e competitividade quanto aos dons espirituais. Havia pessoas com dons mais visíveis e proeminentes na igreja (como o ensino, a pregação e a liderança) e outros com dons e trabalhos com menos destaque. E aparentemente dois problemas surgiram: alguns, com dons mais visíveis e públicos, se tornaram soberbos, colocando-se como superiores aos outros, em detrimento de outros irmãos com dons menos visíveis e públicos, que invejavam os demais ou se sentiam inferiorizados. São problemas sérios: competição interna na igreja; comparação entre dons e talentos; falta de humildade e contentamento.

Paulo mantém o tripé da oração, ensino e pastoreio e, no capítulo 12, afirma que os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo (v.4); o serviço é diverso, mas o Senhor é o mesmo (v.5); e as formas de trabalhar são diferentes, mas é o Senhor quem opera tudo em todos (v.6). Ensina, assim, que cada um recebe algo de Deus de forma única, não importando ter mais ou menos destaque, e que tudo que se tem e se faz é para o Senhor, pela graça e poder do Senhor.

Também enfatiza que o Espírito se manifesta como deseja para um fim proveitoso para o Reino de Deus (v.7); somos todos parte do Corpo (se todos quisessem ser olhos, não houvesse ouvidos, como seria?); e foi o próprio Deus quem dispôs os membros, colocando cada um no corpo como lhe aprouve (v.16-18).

4. Qual é o seu papel?

Se você está envolvido com um processo de revitalização de igreja local faço algumas sugestões.

Primeiramente, busque em Deus humildade de coração e um espírito profundamente submisso a Cristo. Envolver-se em um processo de revitalização, sobretudo ao observar a fraqueza e adoecimento alheios, pode corromper o coração levando-o a julgar, criticar e condenar. Lembre-se que todos os salvos são igualados pelo pecado, pois “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23) e “… vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus” (Ef. 2.8). Somos salvos por Ele e para Ele. Um alerta: envolver-se com a revitalização de uma igreja local com o coração tomado pela soberba ou crítica é delapidar a própria fé e tornar-se uma pedra de tropeço para aqueles que já estão fracos.

Em segundo lugar, busque sabedoria e discernimento de Deus e inicie um processo de identificação das fraquezas e motivos de adoecimento da igreja local. Seja humilde, rejeite qualquer espírito crítico, observe, converse e informe-se. Faça um registro dos pontos fortes e fracos da igreja local que se tornam perceptíveis de forma detalhada. O objetivo neste primeiro passo é conhecer a enfermidade. E lembre-se que identificar os pontos fortes é igualmente importante. Os pontos fortes devem ser valorizados para continuarem a florescer. Já os pontos fracos, precisam ser tratados com amor, na Palavra e dependência de Deus.

Em terceiro lugar, envolva-se e promova o tripé da revitalização: oração, ensino e pastoreio. Ore e convide outros a orar. Ensine ou promova o ensino saudável, amoroso e fiel da Palavra. Pastoreie ou promova o pastoreio e aconselhamento cristão.

Em alguns ambientes, caberá um planejamento detalhado. Em situações assim, sugiro que cinco perguntas sejam respondidas nesse planejamento. A primeira é “qual a fraqueza?”. Liste os principais pontos fracos que devem urgentemente ser fortalecidos. A segunda: “o que deve ser feito?”. Ao lado de cada fraqueza identificada registre as ações que visam tratar e curar, tendo em mente a oração, o ensino e o pastoreio. Em terceiro lugar, “quem fará?”. Cada ação precisa ter um promotor ou responsável. A quarta pergunta é “quando será feito?”. Indica-se, portanto, tanto o prazo quanto a periodicidade. E por fim, “qual o resultado esperado?”. Em outras palavras, o que se espera que aconteça?

Um dos mais lindos resultados de uma igreja fortalecida em Cristo é a missão. Este é um sintoma de vitalidade. Uma igreja fortalecida prega a Palavra, atende aos desafios missionários e se apresenta na sociedade como sal que salga e luz que brilha. Uma igreja fortalecida tem um profundo desejo de fazer Cristo conhecido em todo o mundo.

É importante lembrar que, a rigor, não há plantadores ou revitalizadores de igreja, pois é o próprio Deus quem faz nascer e fortalece uma igreja local. Para isso, Ele também convoca alguns servos para se envolverem com uma intencional busca por vitalidade teológica, espiritual e missionária dos salvos em Cristo. Esses não são chamados para mostrar o caminho da revitalização, mas para percorrer essa estrada juntamente com o povo de Deus. Assim, em todo esse processo, creio que Deus está simplesmente em busca de um coração quebrantado.

[1] Veja Lidório, Ronaldo. Revitalização de igrejas – avaliando a vitalidade de igrejas locais. São Paulo: Vida Nova, 2017.

Sobre o autor
Ronaldo Lidorio é pastor presbiteriano e missionário ligado à APMT e WEC Internacional.
É doutor em Teologia pela SATS e plantador de igrejas entre povos indígenas.
Contato com o autor: ronaldo@lidorio.com.br

Sem comentários

Envie um comentário