RENASCENDO ATRAVÉS DO IDIOMA: UMA REFLEXÃO SOBRE A AÇÃO MISSIONAL E O ENSINO DE PORTUGUÊS COMO LÍNGUA DE ACOLHIMENTO | Por Maurício de Oliveira L. Medina e Mayara Agar de Araújo Silva - Revista Práxis Missional
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RENASCENDO ATRAVÉS DO IDIOMA: UMA REFLEXÃO SOBRE A AÇÃO MISSIONAL E O ENSINO DE PORTUGUÊS COMO LÍNGUA DE ACOLHIMENTO | Por Maurício de Oliveira L. Medina e Mayara Agar de Araújo Silva

A migração sem precedentes do momento presente deve ser compreendida como um fato resultante da ação de fatores simultâneos, tais como: as alterações climáticas, as guerras e os conflitos socioculturais de cunho político ou religioso. Segundo ACNUR “São mais de 65 milhões de pessoas vítimas de deslocamento forçado que estão desenraizadas ao redor do mundo”. A guerra aniquila a vida social e material humana, e a questão climática pode alterar as condições de sobrevivência (ACNUR, 2017, p. 13).

Desta forma, agindo de maneira conjunta, estas empurram populações inteiras a realizar um movimento migratório forçado e indesejado, seja pelo próprio migrante, seja pela própria sociedade que o decidiu acolher. Por isso, faz-se necessário e importante que tanto as pessoas quanto as igrejas repensem sua prática missional a fim de acolher, proteger e emancipar o refugiado, tornando-o protagonista de sua nova trajetória, que se faz quando este renasce para o outro que o acolhe.

Portanto, este artigo traz uma reflexão sobre a ação missional e propõe um modelo de intervenção pedagógica para o ensino de português como língua de acolhimento. Atuando dessa forma na reelaboração e no renascimento dos refugiados.

1. O refugiado e a metamorfose cultural e identitária

Os conflitos socioculturais de caráter político e religioso também provocam esse deslocamento que se torna a única solução de sobrevivência e manutenção da vida de grande número de pessoas. Esses que se deslocam são os migrantes, os refugiados e os apátridas. Que se definem como: migrantes, contingente populacional em deslocamento físico; refugiados, conforme ACNUR, são pessoas que estão fora de seu país de origem devido a violação generalizada de direitos humanos; e os apátridas, são pessoas que perderam o reconhecimento de sua nacionalidade. Vários problemas posteriores surgem devido a essas situações, entretanto, no caso específico do refugiado, o choque cultural linguístico, pode impedir ou dificultar o processo de acolhimento que se concentra no embate em ter que aprender uma nova língua, que talvez nunca tenha feito parte de seu objetivo de vida (ACNUR, 2018, p. 2).

Por isso a aprendizagem em acolhimento da “nova língua” é considerada como sendo um primeiro passo em direção à sociedade que o recebe, de modo que é necessário estabelecer o diálogo entre a cultura de origem e a nova cultura que o acolhe, que pode ser um dos melhores caminhos para o resgate da identidade social e cultural do refugiado. Esse ato educativo sofre a oposição dos efeitos negativos do risco social que produz ou potencializa o sofrimento mental, físico e sócio-identitário.

O diálogo intercultural pode ser uma ferramenta importante para o estudo da nova língua porque promove a reflexão da programação da vida futura, que precisa se sobrepor angustiosamente ao desemprego e aos salários injustos que acabam como que lutando para impedir a conquista de uma vida pessoalmente satisfatória e segura.

O que um refugiado faz, na verdade, é simplesmente fugir. É um ser humano em fuga. Tanto da barbárie, como da fome ou ainda da falta de perspectivas. Refugiar alguém é acolher, cuidar, alimentar, cadastrar socialmente e atender ao que perdeu o seu lar e que pode estar adoecido física e mentalmente de várias maneiras. Os refugiados em migração são aqueles que perderam a possibilidade de exercer os atos normais de suas vidas dentro da cultura constituída e aceita por eles mesmos como a doadora dos elementos que sustentam e estruturam sua identidade sociocultural.

Para Gediel e Godoy:

A hospitalidade sem limitações vem orientada pela ideia que o humano que chega é diferente do outro que o recebe em sua terra. É estranho, estrangeiro, mas mesmo assim humano, que espera a hospitalidade incondicional e se depara com a hospitalidade condicionada. (Gediel e Godoy, 2016, p. 22)

É necessário que se usem critérios de ação acolhedora imediata por ser uma situação emergencial. Acolher, portanto, não significa absorção cultural, mas amparo humanitário para a preservação da vida. O que grande parte dos refugiados desejam mesmo é voltar para a sua terra natal, para sua cultura de origem.

2. A contribuição da ação missional para a reorganização da identidade sociolinguística e cultural do refugiado

Essa situação pode se tornar uma grande oportunidade para reavaliação da ação missional, porque toca na renovação do sentido de solidariedade, que leva ao exercício da compaixão em direção à coletividade social. As feridas provocadas pelas situações vividas por pessoas em refúgio são difíceis de curar, porque são inúmeras e profundas. O melhor apoio a oferecer é ajudá-las a aprender a viver satisfatoriamente apesar das suas dores. A sensação de existência em sofrimento identitário, se não bem amparada corre o risco de se tornar tão forte e devastadora que pode levar o ser humano à dor do caos existencial e até ao abandono de si mesmo. Na questão do apoio ao refugiado, um tema importante a ser considerado é o da necessidade pessoal de reconfiguração da  identidade cultural, em ações constantes de ressignificação.

Nesse choque da identidade culturalmente formada a língua materna é como um artefato que ainda ocupa um enorme espaço na memória do processo de construção do sentido identitário. Portanto, uma prática teológica e missional que seja voltada para o uso da linguagem por meio de uma intervenção pedagógica que tenha em conta o ato de interpretar ou reavaliar tanto a cultura de origem quanto a de acolhimento, pode levar à reflexão sobre a forma de dar sentido à vida. Investir numa hermenêutica que esteja baseada no olhar do refugiado e que interfira nas articulações dos choques identitários, é uma solução para promover uma atitude reflexiva para a reconstituição do ser por meio de uma espiritualidade forjada pelo olhar intercultural.

A promoção de uma prática missional que aporte ideais identificados com a realidade vivida do refugiado é de suma importância para a constituição e reelaboração dos relacionamentos sociais, porque pode lhe proporcionar a percepção de seu protagonismo em relação ao seu renascimento identitário.

Isso pode ajudar a reestruturar a formação da identidade em diáspora. No confronto da cultura materna com a cultura de acolhimento, no sentido do termo bricolagem, de Claude Lévi-Strauss, o indivíduo passa a ter novas práticas culturais e desenvolve ou percebe em si ou em outros as novas identidades possíveis (Roth, 2008, p. 3).

O exercício da solidariedade, que nasce da compaixão e que se liga à prática da misericórdia e do amor, é um sentimento expressado não só em palavras, mas também por meio de ações. É um sentimento que deveria naturalmente levar a concretização de atos de cuidado, de apreço e de valorização não só da figura de Deus, mas também do próximo e até de si mesmo. Os que se sentem comprometidos com a necessidade de uma prática teológica relevante para essa questão podem corresponder ao cuidado de Deus demonstrando, por meio de atitudes práticas, todo o amor possível de ser devotado a Ele, ao próximo e a si mesmo.

E assim como Deus fez manifesto seu sentimento, o amor humano também deve ser demonstrado através de ações. Uma das formas de demonstrar o amor é adotar um alto padrão de tratamento e de cuidado em relação às pessoas que estão ao redor. O profeta Jeremias abordou o tema da grandiosidade da afeição divina, compreendendo a eternidade inerente do amor de Deus, que não tem fim porque nunca teve começo (Jr 31.3). É um fato eterno e universal. Não é um dever, e muito menos uma obrigação. É um sentimento genuíno de afeição em fé que Deus revela gratuitamente ao ser humano e a toda sua Criação.

Esse entendimento compromissado com o aspecto integral do ser humano é um chamado, para levar a vida comum sob um sentimento nobre e construtivo, em correspondência a um afeto recebido. Em Dt 10.17, revela-se a forte relação entre a prática da justiça e a misericórdia amorosa de Deus: “Porque o SENHOR, seu Deus … não faz acepção de pessoas … faz justiça ao órfão e à viúva e ama ao estrangeiro, dando-lhe pão e vestes. Amem, pois, ao estrangeiro, porque vocês foram estrangeiros na terra do Egito”.

3. Modelo de intervenção pedagógica para o ensino de português como língua de acolhimento

Portanto, o estudo da língua de acolhimento pode tornar-se uma ação terapêutica para a questão. O ensino de português como língua de acolhimento para refugiados pode ser uma atividade de relevância para a prática teológica. E com a finalidade de facilitá-la, sugere-se o seguinte esboço de projeto de intervenção, que poderia abarcar os seguintes parâmetros:

Como objetivo de ação geral: promover o contato da língua portuguesa como língua de acolhimento para pessoas em situação de migração e risco social ampliando o canal comunicativo. Como objetivo de ação específica: promover a necessária sensibilização linguística perante a língua de acolhimento, para atenuar os efeitos cumulativos psicossociais do choque cultural.

Como proposta de ação realizar encontros de frequência semanal com o uso contrastante da língua de acolhimento e da língua materna a fim de desenvolver e otimizar a comunicação e interação social. O contato visa promover a sensibilização linguística em ambiente educativo interativo e dinâmico; por meio de conversação leitura e escrita que desenvolvam temas gramaticais e comunicativos, que sejam específicos das línguas em choque, usando o recurso do diálogo intercultural como mecanismo mediador da intervenção pedagógica e missional.

A ampliação e o desenvolvimento de competências comunicativas podem ser realizadas sob uma intervenção pedagógica que promova interações bem simples como:

  1. Cumprimentar e despedir-se.
  2. Pedir permissão, ou ajuda, ou a explicação de uma ideia, ou ainda a repetição de palavras não compreendidas, e até mesmo soletrar as que lhe sejam novas.
  3. Perguntar como escrever e o significado de palavras.
  4. Convidar pessoas para interação social.
  5. Aceitar ou recusar convites.
  6. Sugerir correções.
  7. Apresentar a si mesmo e a outros.
  8. Falar de si mesmo e de outros.
  9. Identificar e descrever pessoas, objetos e animais.
  10. Dar e pedir informações básicas.
  11. Agradecer
  12. Expressar gostos, preferências, agrados e desagrados.
  13. Propor alguma coisa, sugerindo correções ou adaptações.
  14. Dar opiniões, conselhos, instruções e indicações.
  15. Relatar experiências e argumentos.
  16. Desculpar-se por atraso.
  17. Formular hipóteses simples sobre a língua que fala e a que está estudando ou outras que já conheça.
  18. Contar piadas.

Para que seja possível a interatividade, é necessário que cada ato interventor leve em consideração no seu planejamento educativo o uso de expressões simples de:

  1. Afirmação.
  2. Causa
  3. Comparação.
  4. Conclusão.
  5. Existência.
  6. Lugar
  7. Modo
  8. Negação.
  9. Oposição.
  10. Posse
  11. Quantidade
  12. Substituição.
  13. Tempo

Juntando as ações/reações esperadas dos estudantes com o uso das expressões citadas acima e os seguintes conteúdos gramaticais, estabelece-se um curso mínimo de língua portuguesa como língua de acolhimento:

  1. Reconhecer e usar como recurso para a comunicação: verbos que apresentem maior/menor dificuldade de conjugação, os verbos de ligação e saber o uso comum e simples dos modos verbais (indicativo, imperativo, subjuntivo) na comunicação, em locuções verbais do futuro imediato e do gerúndio.
  2. Reconhecer as diferenças e os sons da língua de acolhimento em relação à materna, saber o alfabeto e as regras de ortografia mínimas e os nomes dados aos signos de pontuação e acentuação.
  3. Saber entoar as palavras pela tonicidade vocálica para marcação de sentido.
  4. Pronunciar os dígrafos: nh, lh, ch, rr, ss, sç e xc.
  5. Pronunciar as letras que em português têm variação de som e que também mudem de acordo com o falar regional, com um acento determinado ou por sua posição na palavra: a, c, d, e, g, l, o, r, s, t, u, w, x e z.
  6. Pronunciar as vogais abertas, (ou com acento agudo) e fechadas, (com acento circunflexo) e as nasais, (com sinal de nasalização ou com presença de m ou n), e reconhecer o til como marca de nasalização.
  7. Compreender como pronunciar e ler os encontros vocálicos, unindo em elisão as vogais, as semivogais de uma mesma sílaba.
  8. Pronunciar as consoantes e os dígrafos em encontros consonantais: As surdas que são produzidas sem vibração das cordas vocais como: P – T – K – Q – C (antes de a, o, u) – F – S – X e as sonoras que são produzidas por vibração das cordas vocais B – D – G – V – Z – J – L – LH – R – RR – M – N – NH.
  9. Conhecer, saber ler e entoar os acentos e os sons produzidos a partir da identificação das letras.
  10. Compreender e reconhecer as variações de pronúncia regional da língua de acolhimento, sem o uso dos estereótipos culturais.

Também são necessários para execução da atividade pedagógica:

  1. Fotocópias para os encontros interativos.
  2. Cadernos pequenos, canetas, lápis e borracha.
  3. Quadro branco/negro, giz/caneta e apagador
  4. Local com capacidade de ser usado como sala de ambiente educativo, com mesas e cadeiras adequadas.
  5. Acessibilidade a água e a banheiros para que os estudantes consigam diminuir a tensão dos estudos.
  6. Material de som simples ou caixas de som para reprodução de arquivos musicais para atividades com desenvolvimento da expressão fonética.
  7. Criação de grupos de trabalho de alunos de acordo à faixa etária ou à escolaridade, para maior possibilidade de atendimento de acordo às características dos participantes para a promoção
    de grupos de afinidade.
  8. Encontros de no mínimo uma hora e meia, ou no máximo de três horas semanais. (Ver: Littlewood, 2005; Piera, 2015)

 

Conclusão

Uma língua é um sistema de informações e os idiomas são estruturas linguísticas de informação diferentes porque classificam, adjetivam e explicam as ideias humanas de maneiras distintas. Assim, promover o contato com a língua de acolhimento é importante, para evitar as severas limitações de compreensão impostas pelo tempo.

Agindo ativamente no processo de reelaboração da identidade cultural do refugiado, por meio do ensino da língua de acolhimento como proposta de ação missional é possível atingir a integralidade desse ser humano em sério risco social.

Parafraseando o texto da grande comissão (Mc 16.15-18), o ensino de português como ação missional de acolhimento pode estar relacionado com as palavras ditas por Jesus aos seus discípulos, que fossem por todo o mundo e que pregassem o evangelho a todo ser humano criado por Deus. Aqueles que cressem e fossem mergulhados no caráter divino de Deus seriam salvos de uma vida de vazios espirituais; os que não cressem seriam fatalmente condenados a viver sob o caos provocado pelos fatos que se sobreporiam. Entretanto a vida dos que cressem em seu nome e vivessem pelo seu caráter: (1) seriam opositores ferrenhos a toda forma de perturbação à existência humana; (2) falariam e aprenderiam a se comunicar em novas línguas, compreendendo a forma de pensar de outras culturas; (3) estariam diante de bocas que destilariam palavras envenenadas pelo sofrimento, e até mesmo essa peçonha não lhes faria mal; e, que (4) se com alguma coisa mortífera saciassem sua sede, não lhes faria nenhum tipo de mal e, por fim, (5) se abençoassem as pessoas aproximando delas as suas mãos, trabalhando pelo bem dos enfermos de alma e de corpo, estes encontrariam a cura pela fé em Cristo.

Por isso, faz-se necessário e importante que tanto as pessoas, quanto as igrejas tenham esse olhar para as escrituras e para o ser humano que está a nossa frente, este olhar que o acolhe, o protege e o emancipa tornando-o protagonista de sua nova trajetória, que se faz quando este renasce para o outro que o acolhe, sendo atravessado por essa nova cultura, um novo modo ser e ver o mundo, um novo idioma e até uma nova fé. Podemos, então, ser essas mãos e braços que acolhem, que tocam, que ensinam e que trazem a justiça de Deus aos refugiados. Por meio da fé em Cristo Jesus, eles podem ser ajudados e auxiliados nesse processo de reelaboração, de ressignificação da vida e de renascimento.

Referências Bibliográficas

ACNUR. Protegendo Refugiados no Brasil e no Mundo, 2018.
GEDIEL, J. A; GODOY, G. G. (Orgs.) Refúgio e hospitalidade. Curitiba: Kairós Edições, 2016.
JUBILUT, L. L; GODOY, G. G (Orgs.). Refúgio no Brasil: Comentários à Lei 9.474/97 São Paulo: Quartier Latin/ACNUR, 2017.
LITTLEWOOD, W. La Enseñanza Comunicativa de Idiomas. Cambridge: Cambridge University Press. 2005.
PIERA, V. Diseño Curricular de Lenguas Extranjeras. Gobierno de La Ciudad Autónoma de Buenos Aires – CABA, 2015.
ROTH, W. M. Bricolage, métissage, hybridity, heterogeneity, diaspora: Concepts for thinking science education in the 21st century. Cultural Studies in Science Education, 2008.

Sobre os autores

Maurício de Oliveira Lima Medina é graduado em Teologia pela FTSA, Licenciado em Português como Língua Estrangeira (PLE) pelo Instituto Superior do Centro Cultural Brasil-Argentina de Buenos Aires, possui Especialização em Literatura Sagrada pelo Instituto Superior de Estudos Teológicos – ISEDET- de Buenos Aires.

Contato com o autor: oliveiralimamedina@gmail.com

 

Mayara Agar de Araujo Silva é graduanda em Teologia pela FTSA.

Contato com a autora: leandroemayara@relacionamentoemsantidade.com.br

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