Possibilidades de ações pastorais para uma sociedade do cansaço | Ênio Caldeira Pinto - Revista Práxis Missional
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Possibilidades de ações pastorais para uma sociedade do cansaço | Ênio Caldeira Pinto

O presente artigo é fruto da participação no evento da Faculdade Teológica Sul Americana, denominado Seminários Temáticos II: O Pastorado em Tempos Líquidos, ocorrido no período de 5 a 6 de junho de 2019. Na ocasião, proferi a palestra “No limiar entre o desempenho e o cansaço”, decorrente da leitura do livreto Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, com a proposta de demonstrar as possibilidades de pastorado na atual sociedade de desempenho. O desafio não foi o de resenhar e nem de apresentar o pensamento de Han, mas sim já relatar os resultados da aplicabilidade do seu pensamento. Neste sentido, o(a) leitor(a) não irá encontrar muitas citações e nem mesmo amontoados de linhas escritas por ele, mas sínteses com as quais eu pude identificar possíveis ações a serem aplicadas para o ministério pastoral. E, de início, faz-se a recomendação da leitura a priori da obra de Han como introito à meditação e crítica sobre a atual sociedade.

Apenas para situar o contexto prévio de leitura, o opúsculo de Han sumariza oito reflexões e um apêndice final. Em todos eles, a estrutura argumentativa é tripartida. Na primeira, a discussão apresenta uma situação e/ou um cenário, através do qual o autor direciona o leitor sobre os possíveis temas encontrados. Em seguida, ele credita seu argumento com teóricos, ora da filosofia ora de outras disciplinas pertencentes às ciências sociais, apontando os prós e os contras de pessoas (pensamentos e comportamentos) que atuam na sociedade. E, por fim, o autor solidariza-se com o leitor e direciona seu texto e fala sobre as consequências com as quais a sociedade do cansaço e do desempenho têm suportado.

A seguir, serão apresentadas sete possibilidades de ações pastorais cujas lideranças devem estar conscientes do significado de comunidade, a fim de criar e formar ministérios que atuarão junto à sociedade, seja esta sociedade do desempenho, do cansaço ou do esgotamento.

1. Viver a vida

Uma das características do cristianismo é que nós agimos em prol da vida do outro. Diz-se vida porque no próprio Evangelho de João, em 14:6, o evangelista afirma Jesus sendo o caminho, a verdade e a vida, isto é, o contexto da vida se torna um imperativo ministerial. Seja qual for o conceito de vida (bios, zoē, psychē), contemplado pela liderança, é na compreensão da integralidade que reside o princípio pastoral de viver a vida. Toda a ação pastoral é um ministério de resgate da vida. Na teologia, este ministério foi tradicionalmente chamado de poimênica, do verbo poer (construir, fabricar, fazer), para caracterizar o exercício do pastorado como um serviço de construção de vidas. Afinal, a função pastoral é cuidar de pessoas. Outrossim, cada líder-pastor assume a responsabilidade de ensinar os liderados a viver a vida. O pastorado é, em essência, a condução de pessoas a viver a vida concedida graciosamente por Deus.

A sessão de 1ª Coríntios, especificamente entre os capítulos 12 a 14, narrada pelo apóstolo Paulo, encontra-se a descrição a respeito dos dons. Inicia-se com o capítulo 12, discorrendo sobre alguns tipos de dons: palavra de conhecimento, cura, operação de milagres, profecia, discernimento de espíritos, variedade de línguas, interpretação de línguas. Acrescida a esta lista, há ainda o texto de Efésios 4, com os dons para apóstolo, mestre, profetas, evangelistas e pastores. Completando a atual lista, Romanos 12 indica o ministério de profecia, proporção da fé, ministério, ensino, exortação, contribuição, liderança, misericórdia. Em seguida, o capítulo 13, denominado o Hino do Amor, serve como pano de fundo para ilustrar que o contexto dos dons deve ser exercido em e pelo amor. O amor é a condição pela qual a pastoral compreende o sentido de viver a vida e tê-la como hermenêutica do trabalho do(a) pastor(a). E, por fim, o capítulo 14, salienta o ministério da profecia como exortação, edificação e correção. Ações estas que estão necessariamente ligadas ao ensino, ao aconselhamento e à prática da espiritualidade.

Por muito tempo, houve a compreensão de que o ministério poimênico (construção de vidas) consistia apenas na observação e controle da prática da espiritualidade: oração, jejum, meditação, e assim por diante. Não que tal preocupação estivesse errada, mas efetivamente um ministério de construção de vidas baseia-se no serviço de aconselhamento. Ele é a maior ferramenta de ação dialógica para a transformação de vidas. Além de ouvir os vários conflitos das pessoas, o(a) pastor(a) pode lançar mão de várias técnicas de aconselhamento para ajudar na solução desses conflitos. Não se trata apenas de métodos diretivos ou não-diretivos, mas de técnicas mais sofisticadas e atualizadas para auxiliar pessoas a viverem a vida. Entretanto, as comunidades contemporâneas são deficientes neste serviço porque reduzem o ministério de aconselhamento à prática, por exemplo, de uma simples oração; e também porque há muitos líderes que não são conhecedores do limite da ação pastoral enquanto serviço de orientação. Muitos se atrevem a tratar assuntos mais graves, aos quais seriam melhor resolvidos por psicológicos e, para os mais graves ainda, pelos psiquiatras. E há também a hermenêutica do aconselhamento por atacado: orações coletivas para depressão, angústia, culpa, perda, vínculos, etc. Não é uma oração que resgata pessoas, mas muitas delas. Não é um só aconselhamento que ajuda, mas muitos deles.

O trabalho pastoral de aconselhamento, seriamente realizado pela orientação, trará muito resultado para o resgate de pessoas do que propriamente os vastos placebos litúrgicos e cúlticos. A ação pastoral para a promoção do lema viver a vida é discernida a partir da própria vida da pessoa, tanto no contexto da fé salvífica como no contexto da prática e/ou do testemunho acerca desta fé. A corrida (batalha) cristã (Fp 3:12-14) é uma situação existencial permeada pelos conflitos, e quando direcionada por uma pastoral da vida, as pessoas são aconselhadas a vivê-la e não a desistir dela. No entanto, em uma sociedade do cansaço, as pessoas esquecem, ignoram ou até mesmo deixam de enxergar a própria vida. Geralmente, elas passam a entrar no ritmo que o atual estilo de vida proporciona e são insensíveis a este sistema. Na verdade, elas estão em um viver para a morte. Por isto, a pastoral é um instrumento contra este sistema, quando ensina a pessoa a viver a vida. E a ação pastoral se torna poimênica porque resgata as pessoas no tempo, no espaço e nas relações humanas. E o ambiente de comunidade é a melhor condição para que as pessoas tenham a oportunidade de viver a vida.

2. Sofrer a própria humanidade

A segunda possibilidade de ação pastoral para uma sociedade do cansaço é sofrer a própria humanidade. Todas as criaturas foram criadas à imagem e à semelhança de Deus (Gn 1:26) e, diante de uma compreensão do processo da criação, a expressão “sofrer a própria humanidade” significa estar disposto a viver e a sofrer o processo de se autocompreender como ser humano. Muitas vezes, entende-se tal dinâmica a partir da conjunção da experiência e vivência em momentos distintos, através dos quais o indivíduo descobre sua humanidade. Neste sentido, a Filosofia e a Teologia têm se unido para tratar do indivíduo como um ser que precisa compreender sua experiência de humanidade e aprender a observar as nuances de sua vivência. Seja como for, ambas contribuem para o sentido da humanidade, produzindo significado para cada indivíduo em suas nuances de sofrimento, aprendizado e experiência de vida. Mesmo vivendo em uma comunidade, o indivíduo precisa sofrer a própria humanidade. Byung-Chul Han afirma que a atual sociedade vive o ideal positivo de produzir resultados, na qual cada indivíduo precisa ter excelente desempenho. Nesta sociedade, o estímulo é para que cada ser humano seja um super-homem ou um super-deus, quando, através das experiências cotidianas, ele busca superar-se nos seus limites de conquistas. No entanto, a capacidade de resiliência humana se torna frágil, debilitada, chegando a ser considerada ausente.

Não é porque aceitou a Cristo (conversão) que o indivíduo se torna super crente. É preciso que ele entenda a humanidade no contexto das adversidades, problemas, doenças, enfim no contexto do pecado. Deve-se ter muito claro em mente que a mancha de pecado são indicadores de própria humanidade: dores, tentação, flagelo, doenças, enfim o sofrimento. A conversão é a entrada para o mundo das ferramentas que ajudarão o indivíduo a aperfeiçoar a humanidade frente aos sofrimentos: a comunidade, a Palavra, o Espírito, a comunhão, etc. Atualmente, há muitas comunidades que interpretam as doenças como consequência do pecado, mas são ignorantes ao compreendê-las como condições de aprendizado acerca da humanidade. A própria vida humana (bios) é a maior prova de que o sofrimento é condição para entender a humanidade: nascer é um sofrimento, morrer também. O maior exemplo é o próprio Senhor Jesus, em sua caminhada à crucificação: foi blasfemado, açoitado, sofreu flagelos, foi perfurado, seguido das experiências de angústia, desespero e agonia. Na Teologia, sintetiza-se esses episódios como sendo a Pathos tou Theou (do grego, a Paixão de Deus, ou ainda, o Sofrimento de Deus). Entretanto, sendo humano, considerou sua missão de forma consciente. Ele sofreu a própria humanidade pela consciência da obediência, da humilhação e do serviço (Fp 2:5-11), isto é, esteve disposto a presenciar a vida humana como um presente do Pai.

Então, a evidência de experiência e vivência caracterizam o sofrimento como indicadores da humanidade. Ninguém quer sofrer, mas não há como extingui-lo da humanidade. Por isto, paralela à compreensão de sofrer a própria humanidade, há as explicações do porquê do ministério da redenção. Ou seja, não há como anular o sofrimento, pois somos humanos! A maneira de olhar esta perspectiva é: compreender nossos limites, nossas proibições, os sistemas de exclusão, etc., a fim de que haja sentido pela busca do resgate. Pelo sofrimento, descobre-se a beleza da ação divina pela humanidade: “porque Deus nos amou e enviou-nos Seu Filho” (Jo 3:16). Foi, pois, pelo sofrimento da humanidade de Cristo que a salvação chegou até nós. Ao dizer, “Pai, afasta de mim este cálice, mas faça-se a tua vontade” (Lc 22:42), ficou evidenciado o sofrimento humano, cujo resultado foi a redenção de todos o que aceitaram Jesus Cristo como Senhor e Salvador.

A pastoral é, portanto, para os que sabem entender a necessidade de redenção por meio do sofrimento humano. Em uma sociedade do cansaço, os membros apresentam-se sem o aprendizado de sofrer a própria humanidade, pois o discurso “o crente não sofre” ludibria a oportunidade de experimentar e vivenciar a beleza de ser resgatado por Deus. As atuais eclésias cristãs, ao tornarem-se espaços de sofrimento da humanidade vão se oferecer como ministérios de redenção.

3. Nascer em Cristo

A terceira possibilidade de ação pastoral em uma sociedade do cansaço diz respeito ao nascer em Cristo como uma proposta para o ministério de inclusão. O apóstolo Paulo ensina sobre esta possibilidade através da metáfora do “novo homem” (Ef 4:22-25), um tipo de figura do mundo grego que ensinava a maneira pela qual o ser humano poderia ser apossado (possuído) por um eudaimonion (bom espírito). No caso aqui, Paulo está dizendo que en Christos significa estar convertido em verdade e justiça, pois Ele (Cristo) é Verdade e Justiça! Neste sentido, aderir a Cristo pela fé representa adentrar-se ao projeto de transformação integral, iniciado pela conversão e novo nascimento, e processado pela dinâmica da santidade.

A atual sociedade do cansaço, pautada em modelos de desempenho e de positividade, tem oferecido dinâmicas de exclusão. Há muito mais critérios de exclusão do que propriamente inclusão. No próprio texto paulino em Efésios, o contexto é sobre a transição de “pagãos” (4:17) para “cristãos” (4:20), cuja leitura permite entender como tais grupos foram classificados pelo apóstolo. No entanto, é justo dizer que cada “pagão” (incrédulo) ao ser incluído no corpo de Cristo passou a participar do processo de transformação. De um estágio inicial de incredulidade, pela fé em Cristo, o pagão finalizou-se como “crente em Jesus” – e este efeito é porque o ministério de inclusão salientou que o Deus Crucificado morreu por todos (salvação integral). Portanto, não há estereótipos sociais pelos quais Cristo não possa ser oferecido como Salvador. No entanto, a mensagem cristã oferecida atualmente tem sido filtrada para que alguns grupos sociais favoráveis à fé sejam participantes. Por isto, os grupos “alternativos” que têm surgido são respostas proféticas às comunidades excludentes. Nelas, nem mesmo Jesus seria aceito.

Um ministério de inclusão exige muito esforço da liderança pastoral: ousadia e coragem. Ousadia de advogar estereótipos cujas práticas de espiritualidades não se encaixam em modelos bíblicos e eclesiais. São pastores e pastoras que entenderam os contratempos da mundanização (secularização, indigenização, contextualização) e, em perspectiva de contracultura, ouviram os clamores e decidiram oferecer uma mensagem de libertação ao povo excluído (Ex 6:5). Este povo também precisou ouvir a mensagem, pois o Salvador também lhe deu a salvação (At 10:13). E a coragem de tomar a inclusão como inovação ministerial.

Aquilo que o povo de Israel rejeitou, Jesus Cristo colheu em seu ministério. Os marginalizados são campos férteis para que o ministério pastoral seja grandemente abençoador: os sistemas de exclusão são extintos com perspectivas pastorais de inclusão somente. É fato que o movimento profético do Antigo Testamento entendeu o tema da “justiça social” como fundamento da ação salvífica de Deus. Afinal, excluir pessoas significava reinar para os mortos. Quando os estilos góticos, undergrounds, tatoos, skatistas, entre outros apareceram nas comunidades cristãs, foram todos rechaçados e sem participação comunitária, além de serem interpretados como persona non grata para muitos líderes eclesiásticos. Então, algumas organizações paraeclesiásticas mobilizaram-se para contornar o conflito, mas definitivamente tais grupos jamais tiveram reconhecimento nas comunidades. E o que dizer de outros grupos que se eximem de levantar voz porque doutrinária e constitucionalmente seriam disciplinados.

Defender um ministério de inclusão significa aplicar o critério da fé em Cristo, ou seja, confirmar que a pessoa se dispôs voluntariamente ao novo nascimento. Logo, esta perspectiva de ministério pastoral significa uma potencialização da mensagem salvífica à humanidade decaída e marginalizada. Ninguém será excluído senão a própria ausência da fé, a incredulidade. É, pois, na integração de grupos excluídos que as comunidades cristãs adentram às novas modalidades de comunhão, consolo, fraternidade, solidariedade e participação celebrativa. O “diferente” é motivo de louvor e gratidão a Deus, pois participa na comunidade dos pecadores santificados e justificados. Portanto, há a necessidade do surgimento de uma neo ecclesia, inovando a participação dos que vão sendo batizados e inseridos no Corpo, ou seja, os inclusos são aqueles que foram excluídos pela sociedade do desempenho e as instituições cristãs estruturadas na produtividade.

4. Encontrar-se ética, estética e corporalmente

O ser humano, quando alcançado pela fé em Cristo, é integralmente redimido! Vale aqui o uso do termo integral porque a salvação nunca deve ser oferecida em frangalhos. Em perspectiva de ação pastoral, a quarta possibilidade é contribuir para que a pessoa se encontre ética, estética e corporalmente. Ou seja, é preciso que, para cada pessoa, seja oferecido um dinâmico e eficaz ministério de santificação. A atual sociedade do desempenho exige que o indivíduo apresente resultados: fitness, corpo escultural, performances, alto rendimento, etc. Geralmente, inicia-se com o culto ao corpo como maneira única de expressar a saúde, a integridade física e espiritual. Em uma sociedade do cansaço, o corpo é o que precisa indicar as performances, mas nem sempre há visualizações da mente e do espírito. Neste sentido, uma pastoral que se preocupa integralmente com a santificação do indivíduo sobressai-se às demais porque procurará desenvolver integralmente o ser humano.

Do ponto de vista da santificação, o corpo é o templo do Espírito, lugar em que os efeitos da consagração, da oferta de sacrifício de louvor e a mortificação da carne ocorrem como aprendizado, testemunho e liturgia. Por isto, muitos líderes entenderam que o cuidado com o corpo significou a saúde dele. É bom caracterizar aqui que nem sempre a estética corporal (fitness, alto rendimento e escultura corporal) é sinônimo de saúde. Há uma diferença muito grande da prática de atividade física (exercícios físicos, esportivos, lazer, recreação, etc.) que se diferencia dos atletas de alta performance. Os atletas olímpicos, por exemplo, são inseridos dentro de um programa de treinamento cuja realização é para que produzam alto rendimento. Geralmente, após longas sessões de dedicação e esforços, obtém resultados gloriosos: medalhas, troféus, campeonatos, etc. Tais atletas também se tornam referência de saúde para a juventude e são customizados para as redes de produtos e marcas. Inevitavelmente é o corpo que dá esta visualização de saúde, vigor e potência. Todavia, em contextos comunitários, o cristão tem sua própria corrida (Fp 3:7-14), a fim de estabelecer-se como atleta que corre para alcançar a perfeição.

Por conseguinte, a ética deve ser compreendida a partir dos princípios de integridade mental (cognitiva e emocional), cujas fontes de interpretação passam pela psychē (mente) e cardia (coração). Tais componentes da humanidade, em convivência comunitária cristã, acabam sendo influenciados e levados à transformação porque participam de uma educação para a honestidade, transparência e culto à verdade. Neste sentido, a ênfase axiomática do ministério pastoral concentra-se nos indicadores de uma comunidade que se dispõe a viver a lealdade e a fidelidade a Cristo. Cada indivíduo se tornará mais autêntico porque conhecerá a liberdade que a vivência da verdade lhe proporcionou através de Cristo (Jo 8:36), ou seja, a formação ética cristã inicia-se com a conversão à Verdade (Cristo), alimenta-se com o conteúdo da Palavra (Sl 119:9-16) e conforma-se nos padrões de convivência comunitária (At 2:42-47). Por isto, o sentido da justificação e da santificação como patrocinadoras da ética cristã impõe aos cristãos a comunhão como seu fundamento. E, em associação com a saúde corporal, a ética colabora com o encontro de si através dos valores do conhecimento e do sentimento. Uma excelente pastoral defende o desenvolvimento das habilidades emocionais que conduzem à felicidade, à alegria e ao consolo mútuo diante das adversidades. Pela ética, o ministério pastoral se renova e possibilita o auxílio às pessoas para o cuidado de si, de suas emoções e do seu desenvolvimento cognitivo.

Em consonância ao encontrar-se ética e corporalmente, há ainda a relevante contribuição da estética. Há quem pense neste campo da filosofia como sendo os axiomas sobre o que é belo (ou a beleza em si). O fato é que, em perspectiva de desenvolvimento cristão integral, a estética refere-se à busca da sensibilidade e reflexão por meio dos instrumentos de captação cultural, especificamente a leitura, a dança, a arte, a pintura, a escultura, a poesia, a música, entre outros. Não há como alimentar a alma senão pela busca de conteúdos apropriadamente preparados para ela. Pessoas são sensibilizadas pelo conteúdo da estética: “a bela encanta a fera”. Em contexto cristão, a oração, a devoção, a piedade, a meditação e outras disciplinas são os caminhos de iniciação deste encontro estético. Tais elementos são pouco expressivos nas comunidades, exceto nos momentos litúrgicos. A atual pastoral para o desenvolvimento estético precisa ampliar os horizontes da apreciação e execução artística. Os membros precisam sentir-se seguros de sua expressão cultural, seja ela na produção literária, artística e científica. Os talentos precisam ser evidenciados e direcionados, primeiro, à expressão de louvor e gratidão a Deus, e depois colocados a serviço do reino de Deus. É lamentável que a arte sacra é a única que dita as regras do desenvolvimento estético para o cristão. E, quando a expressão artística de um recém convertido não se encaixa nestas regras, a exclusão é inevitável. A estética é a área especificamente reservada para a expressão dos sentimentos e das emoções. Ela vem muito próxima à ética e, juntas, promovem a sincronia do despertar para a expressão da vida.

O encontrar-se ética, estética e corporalmente é um desafio para a pastoral nas atuais comunidades cristãs. Todavia, é um desafio que se torna motivador para os que ousam acreditar na expressão dos talentos como terapia, dos fortalecimentos de vínculos, das descobertas pessoais, do sentimento de pertencimento à comunidade, das oportunidades diferenciadas de louvor a Deus e do compromisso com a vida em toda a sua integralidade. Em uma sociedade do cansaço, tais chances são impossíveis de acontecer! Por isto, a pastoral do descanso é aquela que saberá aglutinar os espaços cúlticos para a apresentação dos corpos e mentes como louvor e adoração a Deus (Rm 12:1-2). A pastoral para esta inovação continua sendo o ministério de santificação, uma ação altamente saudável e cúltica.

5. Capacitar-se para o reino

A quinta possibilidade de ação pastoral para uma sociedade do desempenho é aquela que entenderá os dons (dōrea e charisma) a serviço do reino de Deus. Neste sentido, todos os dons e talentos (habilidades e capacidades) dos cristãos precisam ser submetidos à metodologia do serviço (ministério, ofício). Pode-se até dizer que a capacitação de pessoas para o reino de Deus constitui-se na agência de ministérios. A ministerialização dos dons é o meio pelo qual todos os convertidos em Cristo podem e devem desenvolver-se e capacitar-se para o serviço. Em termos educacionais, a capacitação refere-se ao período intensivo de formação, delineado pela orientação e supervisão, através do qual a pessoa adentra à especificidade da profissão (em termos cristãos, da ministerialização). Neste sentido, todo cristão dotado de um charisma e que esteja a serviço do reino precisa ser altamente qualificado (desenvolvido, aperfeiçoado). É tempo de pensar em dons mais elaborados e preparados para a qualidade do ministério. Até aqui, o trabalho pastoral será redimensionar (reestruturar) os atuais mecanismos ou sistemas educacionais das comunidades através dos quais os membros terão oportunidade de desenvolver os seus dons.

Portanto, a ministerialização se torna a dinâmica pastoral como qualificadora dos membros para o serviço do reino. Em cada comunidade, na pluralidade de pessoas, identifica-se os potenciais de cada membro, direcionando cada um à prontidão do serviço. A liderança facilitaria o espaço de capacitação (formação específica) na comunidade, a fim de promover treinamento e inserção de grupos ao serviço. É claro que a comunidade atingiria seu ápice de reunião como universidade da formação de obreiros, destinando variedade de funções a completar a maior obra do mundo (At 1:8). Não precisará ocupar espaços já consagrados, ou seja, pastores e pastoras são formados pelas instituições teológicas, mas a educação cristã pertence à igreja local. Nela, os membros se qualificam para a necessidade do entorno: diaconia, socorro, edificação, culto, estudos bíblicos, direção espiritual, aconselhamento, etc. As comunidades com pessoas qualificadas, em perspectiva de reino, se tornam referência para a orientação de vidas. Deve-se entender aqui orientação como as atitudes de ouvir a necessidade e inserir esta pessoa em caminhos de restauração. A comunidade não é agência de emprego, mas deve orientar as pessoas à busca dele. É, pois, pelo trabalho que homens e mulheres entendem o chamado divino. As questões de relacionamentos, principalmente os de convívio familiar, podem ser resolvidas com breves terapias sistêmicas e de fortalecimento de vínculos – seguramente pessoas preparadas com dinâmicas de grupo é de grande auxílio neste contexto. Ao iniciar a ministerialização dos membros, a comunidade se despertará para ações cristãs mais efetivas e comprometidas com o sentido do reino. Buscar a excelência desta capacitação é a tarefa pastoral!

Em muitas instituições educacionais, a matriz curricular de um curso é elaborada e, ao final do programa estabelecido, o(a) aluno(a) é considerado qualificado a exercer uma profissão: o diploma de Engenharia concedido a um(a) aluno(a) certifica que está apto a ser engenheiro. Com raras exceções, há algumas profissões que precisam ainda ser certificadas por outras instâncias, tais como a Medicina, a Advocacia, etc. No contexto cristão, as denominações e confissões religiosas entendem esta qualificação por meio de cursos de Graduação em Teologia, modalidade bacharelado. Entretanto, todas também defendem que a qualificação maior é dada exatamente pela igreja nos processos de licenciatura e ordenação (mas há muitas denominações que consagram seus pastores sem qualquer formação e graduação). Não há problemas com a regulamentação das confissões religiosas; há problemas sim com as que qualificam seus pastores e pastoras sem a formação adequada, ou o mínimo dela. Há confusão semântica e hermenêutica entre a vocação e a qualificação – discussão que só o tempo profético irá dirimir através de análises do caos e do perdão. Seja como for, o contexto exige a presença de obreiros qualificados para a obra. E não havendo o investimento na qualificação, então as denominações irão terceirizar a capacitação ministerial – é possível, pois é a demanda que abre espaço para o serviço cristão.

6. Educar para a esperança

Um dos grandes ensinamentos do Cristianismo para a humanidade é auspiciado pelo ato de educar para a esperança. No contexto cristão, a parousia inaugurou o sentido e o significado produzido pela ressurreição de Jesus Cristo (1Co 15), sendo testemunhado como a promessa de reino vindouro, a glorificação eterna do corpo e a convivência com o Salvador para todo o sempre. É certo que o tema teológico (dogmático) da ressurreição é o axioma máximo do compromisso individual cristão, pois ele crê e tem nela a confirmação deste crer. O credo ut intelligam (creio para entender) de Santo Agostinho confirma a fé em Cristo como um programa de educação, através do qual o crente é conduzido ao conhecimento do mistério da crucificação (morte) e da ressurreição (vida eterna). Logo, a fé induz ao conceito de esperança porque toda a experiência e vivência convergem para atos que vão construir o reino de Deus, seja ele aqui e agora ou o ainda não. Neste sentido, o tema da esperança é a aposta para que o atual ministério pastoral saiba indicar os conteúdos do ministério de educação cristã e teológica.

A tarefa de educar para a esperança significa que a vida não pára, nem mesmo com a finitude! Uma vez alcançada pela fé, a pessoa entra na engrenagem da vida, e será a esperança a responsável para alimentá-la. Em uma sociedade do cansaço, a esperança tem sido apresentada pelas imagens e rótulos de alimentos nas prateleiras dos mercados alienantes, nas propagandas das marcas e ainda nas estéticas da beleza e das praias paradisíacas. Há, sim, discursos e ritos que falsificam a composição da esperança. Nestes estabelecimentos, costumeiramente, há promoções das celebrações momentâneas, das euforias promocionais e, lamentavelmente, passageiras. E é a tarefa pastoral que mais uma vez entra em cena para conduzir (educar) as pessoas a alimentar-se com a esperança. Conduzir pessoas significa estabelecer um programa que as ensine a viver a esperança, a compreender que “estar” na engrenagem da vida é estar ciente dos movimentos. Costuma-se dizer que a vida cristã é uma reta, mas na verdade ela é bem sinuosa, justamente para indicar movimentos.

É no movimento da vida que a pastoral faz as pessoas refletirem sobre a presença do Criador. A pastoral projeta os objetivos da educação para a esperança, a fim de que a experiência e a existência humana sejam conduzidas para a essência do viver. É a pastoral que fará as pessoas entenderem a crença na esperança da vida eterna. Por isto, o sentido do futuro ganha espaço para ser planejado: a esperança direciona as ações humanas para as realizações duradouras. Cada sonho comunitário, alimentado pela esperança, dá espaço para a paz, para o trabalho, para a segurança, para a estabilidade social, para o amor, para a procriação, para a perpetuidade da espécie, enfim para o futuro. A educação para a esperança é um tipo de ação pastoral pró-vida, que canaliza os esforços comunitários e cria condições para que outros possam dar sequência aos objetivos do projeto educacional.

Uma vez sendo educado para a esperança, a pessoa em convívio comunitário cristão ampliará os horizontes das expectativas. Sim, a esperança é a geradora das expectativas. Portanto, o ministério pastoral deverá compreender as representações dos imaginários de esperança que cada membro da comunidade tem acerca do reino, da igreja, da família, da sociedade, enfim da própria vida. E, se as representações estiverem equivocadas, então a pastoral irá reeducá-las para a esperança. Em contextos massificados pelo cansaço, desempenho e esgotamento, a esperança afugenta os conteúdos rasos e apresenta a profundidade da liberdade, da felicidade e da realização. E, uma vez nesta realidade da educação para a esperança, o trabalho dos pastores e das pastoras serão os construtores do futuro!

7. Ver Deus a partir do outro

Byung-Chul Han, em seu opúsculo, adverte a sociedade ao considerar que “o excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração… [quando] O explorador é ao mesmo tempo o explorado… [e quando] os adoecimentos psíquicos da sociedade do desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal” (Han, 2017, p. 30). Na verdade, o excesso de positividade é o resultado da modernidade ocidental decadente e de uma sociedade com esgotamento espiritual. Pela hiperatividade, o indivíduo cessa de contemplar o Criador e não se relaciona com o seu próximo. Por isto, em contrapartida a esta reflexão, a sétima possibilidade de ação pastoral é aquela que consegue ver Deus a partir do outro. É um trabalho de pastores e pastoras capacitados a caminharem com o indivíduo, revigorando sua vida espiritual, cujo desafio maior é proporcionar a superação do igual e do mesmo, ou seja, aproximar-se de Deus através do outro – o que se denomina aqui de ministério da alteridade.

Sim, o maior desafio pastoral na contemporaneidade é inculcar a hermenêutica da necessidade do outro para o encontro com Deus. O alter é sempre o desconhecido, o novo, o estranho, o esquisito, o misterioso, etc. – alguns termos que descrevem pessoas, mas que também foram associados ao Absconditus (o Oculto, Deus). Na equivalência das interpretações, o testemunho do outro (do próximo) é uma das ferramentas através da qual Deus é conhecido pelo eu. E também há a possibilidade do outro ser o alvo do eu para conhecer a Deus. E, nesta mesma dinâmica, há ainda o indivíduo que possui o seu alter-ego, ou seja, o outro do próprio eu precisa conhecer a Deus. Seja como for, a pedagogia da interioridade (Santo Agostinho) é uma das propostas do conhecimento de Deus, não somente pelas discussões da razão e fé, da moral e da ciência, mas de oferecer a oportunidade de o indivíduo conhecer a si mesmo e dispor-se ao conhecimento do outro. Esta relação outro-eu é requisito de uma pastoral que interpreta a atual sociedade do esgotamento como campo fértil à restauração e recuperação de pessoas.

A Palavra de Deus ensina sobre os campos prontos para a ceifa (Jo 4:31-38), em cujo contexto diz respeito a indivíduos que plantam e a indivíduos que colhem. Em outro texto, Paulo diz sobre duas imagens (campo e edifício) para representar a relação de quem planta e colhe, bem como de quem lança o alicerce e de quem constrói (1Co 3:5-17). É interessante observar que há uma proposição pastoral acerca de quem planta e colhe, e de quem lança os fundamentos e constrói. É a relação de um para o outro. Deus é o ponto de intersecção entre os indivíduos. E é na passagem de Romanos 8:14-17 que esta relação fica mais evidente, pois proporciona a compreensão dos relacionamentos humanos – relação entre si e com Deus. Pela metáfora da adoção, todos os crentes em Cristo são feitos filhos de Deus e, pelo testemunho do Espírito, são considerados a família da fé: Cristo é o elo entre o eu e o outro. Portanto, o ministério da alteridade consiste em uma pastoral de resgate entre os relacionamentos de convívio, a começar com os da família cristã. Equivale a dizer que a comunidade é o lócus da pastoral da alteridade.

A fim de produzir um ministério da alteridade, deve-se considerar a possibilidade de uma sociedade do descanso, através da qual os encontros são espaços e momentos de conhecimento entre pessoas e de pessoas e Deus. A valorização deste ministério amplia os caminhos e os mecanismos de produção de sentido comunitário: o bem comum, a singularidade das relações, a proximidade das decisões, o compartir, as celebrações, o socorro às necessidades e a eficácia da solidariedade, dentre outras formas de convivência familiar. Han (2017, p. 51) diz “aprender a ver significa ‘habituar o olho ao descanso, à paciência, ao deixar-aproximar-se-de-si’, isto é, capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa, a um olhar demorado e lento”. Ou seja, a pastoral poderá oferecer metodologias de ver Deus no fortalecimento de vínculos entre os cristãos, ao mesmo tempo que tal oportunidade se torna conhecimento sobre o próprio Deus.

Considerações finais

Verdadeiramente a leitura da pequena obra de Byung-Chul Han possibilitou a identificação de ideias e estratégias de ações pastorais no atual contexto da missão cristã. Como ele refletiu sobre várias situações que caracterizaram a sociedade do cansaço, do esgotamento e do desempenho, a opção aqui foi a de opor-se a tais conceitos e oferecer sete possibilidades de ação pastoral, a partir da noção de sociedade do descanso. Nesta sociedade do descanso, o convívio das pessoas é em sentido e performance comunitária, cujas ações são voltadas para um ambiente em que as pessoas possam viver a vida em sua plenitude, sendo construídas pelo serviço de orientação e aconselhamento. Nesta comunidade, o sofrimento será contemplado porque dará oportunidade à atuação do ministério de redenção, ou melhor, ajudando as pessoas a superar o “sofrer a própria humanidade”. E, na dinâmica pastoral de alcançar vidas, os diferentes grupos sociais vão sendo incluídos porque são indivíduos que nasceram em Cristo. Em contraposição à sociedade do desempenho, a pastoral contribuirá para que as pessoas entendam a tríade ética, estética e corpo com foco no ministério de santificação. Para responder efetivamente à missão, cada membro da comunidade precisará ser pastoralmente capacitado a fim de que todos os dons e talentos estejam a serviço do reino, bem como educados para o exercício da esperança. Por fim, a sociedade do descanso é aquela que busca enxergar a Deus nas relações de convivência entre as pessoas e as pessoas e Deus.

Após a leitura e a checagem das possibilidades aqui descritas, conclui-se que o atual contexto, ao mesmo tempo que desafia a liderança pastoral, também proporciona maneiras criativas de atuação pastoral porque trabalha diretamente com os participantes da sociedade do cansaço. Em sentido de comunidade, a pastoral é inovadora e favorece o alcance de pessoas para a celebração da vida, da esperança e do conhecimento de Deus.

Sobre o autor
Ênio Caldeira Pinto é Mestre em Teologia pelo Western Theological Seminary, Michigan, EUA; Professor da Faculdade Teológica Sul Americana e atual coordenador de Extensão e Pesquisa na instituição.
Contato com o autor: enio@ftsa.edu.br

 

Bibliografia consultada
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
HOUSTON, James. Orar com Deus. São Paulo: Abba Press, 1999.
HOUSTON, James. Fome da alma. São Paulo: Abba Press, 1999.
HOUSTON, James. Busca de Deus. São Paulo: Abba Press, 1999.
SANTO AGOSTINHO. A verdadeira religião. 2ª ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1992.
SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Martin Claret, 2008.
SANTO AGOSTINHO. Sobre a potencialidade da alma. Petrópolis: Vozes, 1997.
MENEZES, Jonathan. Humanos, graças a Deus. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2013.
NOLL, Mark A. Jesus Christ and the life of the mind. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 2011.

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