O sentido da vida no cenário da sociedade digital | Por Cezar Flora - Revista Práxis Missional
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O sentido da vida no cenário da sociedade digital | Por Cezar Flora

Introdução

Falar sobre o sentido da vida é colocar-se diante de uma questão existencial, é perguntar-se sobre significado, propósito, direção, e assim por diante. Porém, também é falar sobre narrativa. Como assim? Caso não houvesse uma narratividade as inúmeras experiências não passariam de um emaranhado desconexo. Ao ordenar as experiências da vida, a narratividade permite falar também de um sentido para a vida. Através da narratividade buscamos construir um relato (coerente?) sobre a vida, um relato que também nos permite construir uma identidade para o nosso eu (um si mesmo) e, assim, assimilarmos as nossas experiências em um todo coerente (mas uma coerência própria ao caráter da narrativa da vida).

Isto posto, proponho encaminharmos a nossa conversa em torno da seguinte questão: analisar algumas das implicações das mediações digitais para a construção narrativa de identidades pessoais em um contexto onde a tradição vem perdendo sua capacidade de delimitar um enredo básico para a vida.

 

1. O eu como um projeto reflexivo

Em termos simples, uma sociedade tradicional é uma sociedade onde a tradição herdada constitui-se em um dos principais pontos de referência para a ordenação da vida. Embora isso não signifique dizer que nas sociedades tradicionais ocorra uma repetição cega do que foi herdado, pois, cada geração também reinventa a tradição que recebe.

Entretanto, a partir da modernidade ganha ênfase uma nova forma de ordenar a vida: o peso sai do passado e pende para o futuro, um derreter dos sólidos da tradição (Bauman). Neste novo contexto o conhecimento racional e científico seria capaz de fornecer os elementos definitivos para a construção de um futuro formatado exclusivamente por princípios racionais. Porém, já em meados do século XIX e depois, com as experiências amargas da primeira parte do século XX, questiona-se a fé em um futuro delineado pela ciência ou a ideia de um norte, um horizonte. Com o passar do tempo, a velocidade do derretimento dos sólidos se acentuou e, consequentemente, dos referenciais para a construção das identidades narrativas dos indivíduos.

Dentre as características da modernidade, Giddens (2002, p. 38) chama atenção para a reflexividade. Em um sentido geral ela é uma característica definidora de todo agir humano, um monitorar reflexivo da ação. Embora o pensar sobre as próprias ações não seja um tema novo, a reflexividade adquire um novo sentido: “a reflexividade da vida social moderna consiste no fato de que as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas”, ou seja, uma reflexividade indiscriminada. Mas aqui, um paradoxo: não há segurança de que um elemento (um novo conhecimento, uma nova prática, etc.) não será revisado em algum momento. Como exemplo, as dietas: novas pesquisas recomendam o abandono de dietas recém implantada, que, por sua vez, serão novamente contestadas. Uma reflexividade se estende por todas as dimensões da vida.

A reflexividade da modernidade se estende ao núcleo do eu. Posto de outra maneira, no contexto de uma ordem pós-tradicional, o eu se torna um projeto reflexivo. Transições nas vidas dos indivíduos sempre demandaram a reorganização psíquica, algo que era frequentemente ritualizado nas culturas tradicionais na forma de ritos de passagem. Mas em tais culturas, nas quais as coisas permaneciam mais ou menos as mesmas no nível da coletividade, geração após geração a mudança de identidade era claramente indicada — como quando um indivíduo saía da adolescência para a vida adulta. Nos ambientes da modernidade, por contraste, o eu alterado tem que ser explorado e construído como parte de um processo reflexivo de conectar mudança pessoal e social. (Giddens, 2002, p. 37)

Chegado a este ponto, creio haver delimitado o contexto a partir do qual desejo olhar para o papel do digital no processo de construção das identidades narrativas.

 

2. Mediações digitais

A experiência humana da vida é sempre mediada pela linguagem, por textos, por valores, por conceitos, por imagens, por instituições, pelas memórias elaboradas, etc. É através dessas mediações que percebemos (ou construímos) a realidade e a nós mesmos. É aqui que desejo localizar o digital: como um dos instrumentos de mediação da experiência humana, e, consequentemente, da construção de nossas identidades narrativas dentro de um contexto onde o “eu” se torna um projeto reflexivo.

Aproximadamente 60 anos separam a construção dos primeiros computadores (gigantes) do lançamento do primeiro smartphone (o BlackBerry, em 2002). Hoje já não conseguimos viver sem eles! A ponto de em nosso dia a dia usarmos expressões como: “estou em bateria”, “estou com pouco sinal”.

Os maravilhosos aplicativos, que surgem aos montes, estão presentes (ao mesmo tempo em que também redefinem) na forma como ouvimos músicas, como acessamos informações, como nos relacionamos com os outros, como cuidamos dos nossos corpos, como gerimos nossas finanças, como nos entretemos… a lista é gigante. Isto apenas indica como as tecnologias digitais têm mediado a nossa experiência da vida e nossas formas de narrar a própria vida.

Como exemplo desta presença, olhemos para o caso das redes sociais. As primeiras análises das redes sociais falavam do ciberespaço. Porém, alguns hoje já falam do “mito do ciberespaço”, como colocado por Nancy K. Baym: “A comunicação mediada não é um espaço, é uma ferramenta adicional que as pessoas usam para se conectar, uma ferramenta que só pode ser entendida como profundamente embebida e influenciada pelas realidades diárias da vida corporificada” (Apud. Miskolci, 2013, p. 16). Em um sentido mais geral, Byung-Chul Han (2018, p. 10) afirma que “arrastamo-nos atrás da mídia digital, que, aquém da decisão consciente, transforma decisivamente nosso comportamento, nossa percepção, nossa sensação, nosso pensamento, nossa vida em conjunto”. Somos seres humanos, conectados, vivendo uma vida conectada.

 

3. As mediações digitais e a reflexividade do eu

Muito se tem escrito a respeito deste papel do digital como mediador das experiências da vida. Dentre as leituras críticas existem algumas mais negativas (Zygmunt Bauman, Byung-Chul Han) e outras menos (Pierre Lévy, Anthony Giddens), buscando indicar as novas possibilidades que essas mediações proporcionam. Pensando na relação entre mediações digitais e reflexividade do eu (no processo de construção narrativa da identidade), chamo atenção para dois pontos:

Primeiro ponto, uma construção narrativa marcada por uma reflexividade indiscriminada requer a produção de dados e informações para as autoanálises constantemente requeridas. Neste sentido, as mediações digitais produzem uma quantidade assustadora de informações e dados a nosso respeito. Byung-Chul Han fala de um quantified self (ou um eu quantificado):

A crença na mensurabilidade da vida domina toda a era digital. O corpo é equipado com sensores que registram dados automaticamente. São medidos a temperatura corporal, os níveis de glicose no sangue, a ingestão e o consumo de calorias, os deslocamentos e os níveis de gordura corporal […]. Até mesmo nos momentos de repouso o desempenho e a eficiência têm importância […]. O desempenho corporal e mental deve ser melhorado através da autoaferição e do controle. No entanto, o puro acúmulo de dados não responde à pergunta quem sou eu? (Han, 2018, p. 83-84)

Como salienta Han, a mera multiplicação de dados e informações, que não implicam na resposta à pergunta quem sou eu?, é vazia de sentido, produz apenas dados soltos que não narram coisa alguma. Os dados por si só nada dizem, pois precisam ser interpretados, organizados, submetidos a algum algoritmo.

Segundo ponto, as novas dinâmicas do processo da construção narrativa da identidade. Nas sociedades tradicionais, tradição e comunidade encontram-se entre as maiores referências básicas para a construção das identidades narrativas de seus membros. Porém, nas sociedades onde a tradição perde seu papel de referência última o “local” passa a ser permeado pelo “global”. Com o advento das redes sociais (Facebook, YouTube) ocorre ao mesmo tempo uma explosão de novas referências. Minorias, que não encontravam espaço nos gigantes da mídia, encontraram espaço e público. Novas possibilidades de ver a vida ganham espaço. Tradição e comunidade local vão perdendo aos poucos seu papel de referência última, e a reflexividade do eu dispõe cada vez mais de novos referentes. Ou seja, os enredos que determinam as narrativas tornam-se mais maleáveis.

Resumindo: a forma de construirmos as nossas narrativas adquirem novos contornos. O “eu” se torna um projeto reflexivo, constantemente em revisão e os referenciais narrativos se expandem para além dos limites da tradição e da comunidade local.

 

4. Implicações pastorais

Como indicamos no início dessa nossa conversa, sentido e narratividade estão profundamente conectados. Porém, pontuo que, embora a narratividade não tenha deixado de ser necessária a vida, ela adquiriu novos contornos. Em um artigo anterior (Flora, 2019) discuti com mais detalhes sobre as histórias que ainda podemos contar, e explorei alguns modelos que não mais nos estão disponíveis. Pensando a partir destes pressupostos, como implicação pastoral desta reflexão chamo atenção para o aspecto narrativo do evangelho.

A sistematização (embora tenha o seu lugar) da fé por vezes tolhe a percepção de que o evangelho é uma narrativa entre Deus e os seres humanos, uma narrativa para onde confluem múltiplas histórias. A despeito dos inúmeros dados soltos e dispersos, a narratividade do evangelho coloca-se como um instrumento de produção de sentido para a vida. A pergunta “quem sou eu” se faz ouvir diversas vezes no texto bíblico, e, para todas, a história dessas vidas com Deus plenifica a vida com um novo sentido.

Em nosso tempo, a produção imensa de dados dispersos sobre a vida pode desfocar um sentido organizador para toda essa carga de experiências. Porém, confluir na história de redenção do evangelho pode nos proporcionar uma ferramenta para que a vida não se perca em um vazio sem sentido, mas, que se plenifique através do sentido da vida nova que o poder do Espírito pode gerar em nós e através de nós.

Nestas histórias a serem escritas, pontuo mais dois desafios: o papel da tradição e o da comunidade local. Não vivemos mais em uma sociedade tradicional. Entretanto, isso não significa que não haja lugar para a tradição, ou que esta deva ser negada em todos os seus aspectos. Ed René Kivitz diz,

É próprio de cada geração revisar compromissos, acordos, crenças e valores das gerações anteriores. Isso é imprescindível. Somente os animais são os mesmos de geração em geração. A sabedoria, entretanto, recomenda que cada geração deve cuidar para que, ao jogar fora a água seja da bacia, não jogue também o bebê. (Kivitz, 2017, p. 287)

Embora não seja uma camisa de força, a tradição se coloca como uma legítima parceira de diálogo frente aos novos desafios. Precisamos de equilíbrio: nem uma sacralização que revista a tradição de um caráter imutável, nem um apego voraz pelo novo que jogue fora o bebê junto com a água suja.

Por último, o papel da comunidade local. Outrora o ponto último de referência, hoje mais um dentre os múltiplos pontos de apoio para a construção das histórias individuais (como vimos, fator potencializado pelas mediações digitais). Entretanto, aqui convém ressaltar o aspecto comunitário da narrativa do evangelho: o evangelho sempre nos liga aos outros, não nos isola. Por mais que o conceito de comunidade ande hoje muito desgastado, a comunidade ainda tem um importante papel (novo?) a exercer num mundo onde cada vez mais o local tem sido permeado pelo global. “Uns aos outros”, eis a dinâmica comunitária do Espírito, e que deve permear o sentido de nossas histórias.

 

Referências bibliográficas

FLORA, Cezar. Uma pastoral da narratividade. In: Práxis Missional, ano 2, n. 4 (2019), pp. 41-49.
GIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes, 2018.
KIVITZ, Ed René. Sobre/viver: 365 fragmentos de sabedoria dos provérbios. São Paulo: Mundo Cristão, 2017.
MISKOLCI, R. Novas conexões: notas teórico-metodológicas para pesquisas sobre o uso de mídias digitais. In: Revista Cronos, v. 12, n. 2 (2013), pp. 9-22.

 

Sobre o autor

Cezar Flora é Mestrando em Filosofia pela UEL; Graduado em Teologia e Filosofia; Professor da Faculdade Teológica Sul Americana.

Contato com o autor: cezar.flora@ftsa.edu.br 

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