O sentido da vida no cenário da sabedoria bíblica | Por Marcos Orison Nunes de Almeida - Revista Práxis Missional
Site da Revista Práxis Missional. Publicação da Faculdade Teológica Sul Americana.
práxis, práxis missional, revista cristã, teologia, educação, ftsa, missão, missão integral, faculdade teológica sul americana,
830
post-template-default,single,single-post,postid-830,single-format-standard,theme-bridge,woocommerce-no-js,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,qode_grid_1300,hide_top_bar_on_mobile_header,qode-content-sidebar-responsive,columns-4,qode-theme-ver-14.4,qode-theme-bridge,disabled_footer_bottom,wpb-js-composer js-comp-ver-5.4.7,vc_responsive

O sentido da vida no cenário da sabedoria bíblica | Por Marcos Orison Nunes de Almeida

Introdução

Podemos pensar que uma das formas de entendermos a teologia em geral, como um fenômeno humano, é vê-la como uma tentativa discursiva de darmos sentido à vida ou à existência. Assim, os vários textos bíblicos procuram explicar o que é a existência humana: quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Logo de início as Escrituras trazem o livro de Gênesis como um prólogo para todos os outros que o seguem e ali lemos a afirmação cabal da criação divina: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1:1). Todo o resto decorre desta grande declaração. Muito embora apenas essa afirmativa não seja suficiente para dar conta do amplo questionamento sobre o sentido da vida, ela insere o elemento mais fundamental para a fé cristã que é a origem da existência em Deus. Afirmar Deus no princípio e como princípio das coisas nos insere em um ambiente de transcendência que permite considerar algumas razões, propósitos, alvos, objetivos etc. para o sentido da vida.

Obviamente que essa afirmação inicial não é suficiente. Aliás, como já mencionado, é apenas o prólogo de uma grande revelação escriturística que procura explicar a existência humana em toda a sua complexidade dando-lhe sentido. Logo em seguida, os primeiros capítulos do livro de Gênesis nos trazem o grande drama da criação-queda do ser humano e quase todo o resto da bíblia se dedica à restauração da vida humana em função daquilo que foi tradicionalmente conceituado como queda. Dessa maneira, os temas da criação, queda e salvação logo passam a compor esse compêndio de ideias e conceitos teológico-religiosos que vão procurando dar explicação e sentido para o mistério da vida humana.

O grande desafio, no entanto, é conseguirmos compreender ou alcançar um significado satisfatório ao sentido da vida proposto na Bíblia. Em outras palavras, como fazer com que aquilo que lemos seja capaz de satisfazer a nossa carência de sentido? Ou ainda, de maneira mais complexa, como concordar inequivocamente com as diversas interpretações oriundas da leitura dos textos apresentados nas Escrituras a ponto de obtermos clareza e satisfação para o nosso constante questionamento sobre o sentido da vida?

Diante dos vários caminhos e possibilidades bíblico-teológicas de entendimento desse grande questionamento sobre o sentido da vida humana na bíblia, temos nos textos conhecidos como Escritos uma das mais interessantes abordagens. Isso porque, os Escritos incluem textos poéticos e sapienciais da cultura hebraica. De certa forma, a via poética e sapiencial nos fala desde uma perspectiva de sensibilidade própria que inclui tanto os apelos racionais quanto emocionais. Ali encontramos a fala do coração e da alma. Também encontramos a experiência da vida vivida e não apenas da vida conjecturada.

Meu foco nesse artigo será refletir mais especificamente sobre o sentido da vida desde a perspectiva da sabedoria bíblica tida, igualmente, como revelação divina. Sendo este um assunto inesgotável, minha intenção é apenas introdutória e provocativa; uma sugestão para que pensemos a vida a partir dessa ótica curiosamente instigante.

 

1. A sabedoria bíblica: Provérbios, Eclesiastes e Jó

A sabedoria bíblica, como estilo literário, perpassa vários livros, principalmente os do Antigo Testamento, mas encontra-se de maneira concentrada e explícita em três: Provérbios, Eclesiastes e Jó. Mas o que é a sabedoria dos tempos bíblicos? Como podemos defini-la?

Como todas as nações, Israel também entendia por “sabedoria” um conhecimento prático das leis da vida e do mundo, baseado na experiência. A palavra hebraica que se traduz por “sábio”, “sabedoria”, significa, inicialmente, ser experiente, ter competência técnica, como se diz de um marinheiro, de um siderúrgico, de um conselheiro político etc. A sabedoria de Israel é um fenômeno multifacetado que também sofreu consideráveis mudanças. Mas o que é característico para tudo o que a sabedoria manifestou na vida é esse ponto de partida nas experiências elementares. Em todos os níveis de cultura, o ser humano é posto diante da tarefa de ter que dar conta da sua vida. Para esse fim, precisa conhecê-la e não deixar de estar constantemente atento para descobrir, se em meio ao emaranhado dos acontecimentos não se consegue constatar, aqui ou ali, algo como uma regularidade, uma ordem (Von Rad, 2006, p. 405).

A princípio, a sabedoria é, então, o resultado do conhecimento prático que se obtém da vida ao observá-la e compartilhá-la. Ela trata das experiências elementares da vida a que o ser humano está exposto, envolvendo as lutas, os desafios, as decisões, as consequências e os resultados esperados. Diante da complexidade da vida humana a sabedoria procura aquilo que é comum e que possa ser compartilhado. Nesse sentido, a sabedoria pressupõe experiência de vida no sentido de tempo, ou seja, em tese, os mais velhos assumem a responsabilidade de se tornarem detentores da sabedoria e de passarem adiante os seus conhecimentos.

Os três livros bíblicos sapienciais, contudo, possuem perspectivas diferentes ao comunicarem suas mensagens. O livro de Provérbios parece buscar um fio condutor para o entendimento da vida, enquanto Eclesiastes e Jó apresentam um caráter mais cético quanto a possibilidade de encontrarmos alguma lógica unificadora por trás da vivência humana. Provérbios, como o próprio nome do livro indica, é uma coletânea de assertivas e ditos, às vezes repetitiva, sem a preocupação de inserção destes versos em uma narrativa organizadora. Ernst Sellin e Gerog Fohrer (1977, p. 472), por exemplo, dividem o livro em oito seções atribuídas a diferentes autores que foram ali reunidas. Eclesiastes já possui um enredo mais amplo, embora sem uma clara linha mestra, fora aquela de abraçar as confusões e idiossincrasias humanas. Jó, por outro lado, apresenta-se como uma novela, bem estruturada em sua história e personagens, com um extenso diálogo argumentativo. Enfim, os três livros, de maneira distinta, têm como propósito falar da vida como ela é tendo como princípio a perspectiva da sabedoria bíblica.

Em que se pese a busca pelo entendimento da vida, os três livros se complementam oferecendo diferentes abordagens. Se levarmos em conta a dimensão desse desafio de tentarmos apreender a realidade e indicarmos um sentido para a vida humana, certamente necessitaremos apelar para diferentes aproximações quer sejam de ordem sistematizadora — filosóficas e teológicas — quer sejam de ordem empírico-vivencial. E, embora, como ocidentais tenhamos a tendência ou preferência pelas argumentações filosóficas, a sabedoria bíblica tende a proposições com base na vivência. Daí, talvez, haja de nossa parte dificuldade na compreensão do texto sapiencial. Nossa tendência seria a de encontrar respostas únicas e conclusivas, enquanto a sabedoria nos convida a mergulharmos no drama e nos identificarmos com as experiências humanas, mesmo que elas sejam fluidas.

Essas observações gerais podem não ser suficientes para a tarefa interpretativa dos textos. Dependendo dos métodos exegéticos e hermenêuticos que prefiramos utilizar, as informações sobre os momentos históricos em que, provavelmente, os textos tenham sido produzidos nos ajudam. No caso do livro de Provérbios talvez tenhamos um misto de contextos que perpassam desde a monarquia até o pós-exílio babilônico. Já os livros de Jó e Eclesiastes parecem ter sua edição final no tempo pós-exílico. Principalmente para esses dois últimos livros essa é uma informação fundamental, pois o período pós-exílico é fortemente marcado pela perda da esperança de intervenção divina na história concreta, como acontecia no passado do povo de Israel. O que estava em jogo ali não era a fé em Deus, mas o entendimento de como a sua intervenção se daria naquele momento presente ou se efetivaria no futuro. Esse paradoxo entre a fé e a esperança ou a dinâmica que se estabelece na vivência de uma confiança desconfiada é o que permeia esses textos de sabedoria. Se por um lado esse período de desestabilização da teologia tradicional insere a mística apocalíptica, ele também traz a perspectiva humanizadora da sabedoria experiencial.

No contexto do pós-exílio babilônico vemos o desenvolvimento de uma perspectiva teológica que apela para as os ambientes, forças e disputas celestiais — e infernais — que denominamos de apocalíptica. A compreensão e participação humanas na transformação da história são remetidas para esferas em que os seres angelicais e demoníacos é quem se tornam os responsáveis, fazendo dos humanos meros espectadores ou simplesmente intercessores. Tudo, porém, ocorre sem abster-se da noção de controle divino que, por outro lado, se torna altamente misterioso e enigmático. Essa teologia mistificada que domina parte do discurso da época recebe a companhia do tipo de sabedoria oferecida por Jó e Eclesiastes, que desnuda essa situação de dúvida em meio a fé em Deus, além de uma realidade recheada de paradoxos. Podemos dizer que temos aqui uma teologia humanizada, cheia de receios, inseguranças, dúvidas, questionamentos, contudo, sempre reafirmando a intencionalidade de agarrar-se à fé em Deus, aquele que dá sentido a tudo.

Esse é um dado fundamental que não podemos perder de vista quando nos aproximarmos da sabedoria bíblica. Os discursos teológicos, embora humanos, têm a tendência de assumir uma linguagem alta, divinizada, celestial, mistificada, absolutista e propositiva, como se fosse o próprio Deus falando diretamente a nós. No caso da sabedoria, diferenciando-a como uma teologia mais humanizada, o discurso sobre Deus assume características mais humanas, ou seja, frágeis, dúbias, incertas e paradoxais, como que se nós estivéssemos falando para nós mesmos. Consequentemente, a teologia da sabedoria bíblica se torna mais próxima, se assim a entendemos, sem, contudo, perder o aspecto de revelação divina que os outros tipos de discursos também possuem.

Por último, não há como falar da sabedoria sem mencionar o sábio. Observamos nos livros bíblicos duas faces do sábio. A primeira é a do autor, que assume essa responsabilidade ao compartilhar suas observações sobre a vida. A segunda é a daquele que pretende ser sábio e para isso deve seguir os conselhos do primeiro. Nesse sentido, a ambiguidade que recai sobre o sábio é a de que ele sempre é um aprendiz de si mesmo e de outros. Ele não deve ser aquele que sabe conceitual e racionalmente com um fim em si mesmo, mas aquele que experimenta, vivencia e compartilha aquilo que sabe com os outros. A autoridade do sábio vem precisamente desse colocar os pés no chão da estrada e percorrer os caminhos da vida. Se possível, em meio aos muitos caminhos e descaminhos, o sábio será aquele capaz de indicar o melhor caminho.

 

2. A sabedoria bíblica: uma ilustração

Até aqui procurei fazer apontamentos gerais e técnicos em torno de aspectos literários, históricos e teológicos de como a sabedoria bíblica trata do tema do sentido da vida. Agora tentarei construir uma ilustração que explique metaforicamente a abordagem proposta pelos livros sapienciais naquilo que podemos absorver como revelação divina voltada para a aplicação prática em nossas vidas cotidianas.

Pensemos na arte de viver como comer e apreciar um bolo. Todos sabemos o que é um bolo e temos uma ideia do que é um bom bolo. Ainda assim temos as nossas preferências de tipos, sabores, coberturas, maneiras de comê-los, etc. Podemos gastar infinitas horas discutindo as nossas preferências, no entanto, o nosso principal objetivo deveria ser comer o bolo e não nos desgastarmos infinitamente discutindo sobre ele. Por outro lado, se todos queremos ter a experiência de comer um bom bolo, por que não estabelecermos diálogos sobre tudo aquilo que envolve os ingredientes, o preparo e o ato de comê-lo? Por que não compartilharmos as nossas ideias, preferências e experiências visando algo ainda melhor para essa realidade comum?

Difícil saber onde e como iniciamos essa conversa. Há muitas receitas de bolo e todas têm como objetivo ajudar-nos no preparo de um bom bolo para podermos saboreá-los. Entretanto, muitas vezes, temos a tendência de preferir uma receita específica e, de certa forma, cada um prefere a sua. Um dos grandes problemas que enfrentamos nesse processo é quando queremos impor a nossa receita aos outros, às vezes, com a disfarçada motivação de estar apenas indicando aquilo que achamos que é o melhor — os detentores dos discursos das teologias sistematizadoras, doutrinárias e filosóficas têm essa tendência. Mesmo as receitas, são pensadas e elaboradas a partir de casas, cozinhas, supermercados e lojas específicas — determinados por cada contexto. Quando indicamos um ingrediente, uma medida, um utensílio ou um equipamento de cozinha, na maioria das vezes não consideramos que, dependendo do lugar onde a outra pessoa esteja, ela não será capaz de repetir a mesma receita. Alguns até tentam diminuir a influência do contexto e apelem para a precisão das medidas, substituindo xícaras, colheres e pitadas por mililitros e gramas, uma vez que xícaras, colheres e pitadas são muito variadas. Um dos maiores problemas, e que se torna crucial para o cozimento do bolo, é a temperatura. Muito poucos fornos possuem precisão na indicação da temperatura exata no seu interior, isso sem considerar a sua capacidade e tamanho. Enfim, tudo é muito aproximado, embora possa desejar a precisão.

Se levarmos em conta a questão dos ingredientes, essa tentativa de querer propor o melhor bolo ou um tipo de bolo único para todos torna-se impossível. Considerando todas as marcas de ingredientes, composições químicas e variedades, as indicações da receita tornam-se quase genéricas ou incapazes de serem seguidas. Mais complicado ainda é se a receita for originária de outro país, em que marcas e produtos são desconhecidas ou inacessíveis de um lugar para o outro — isso sem contar os diferentes sistemas de medidas: quilo ou libra, mililitro ou onça, graus Celsius ou Fahrenheit etc.

Todas essas variantes são grandes problemas para aqueles que defendem a receita única e perfeita para os bolos. Contudo, se o nosso objetivo é algo mais amplo, lúdico, e prazeroso que é comer o bolo, temos que adicionar outros ingredientes à receita que são a flexibilidade, criatividade, intuição, além do nosso próprio livro de receitas que compila um histórico de experiências próprias em fazer bolos. Podemos e devemos adicionar também o livro de receitas de outros, suas dicas e vivências de cozinha que muito contribuem para, não apenas fazer, mas também aperfeiçoar a nossa habilidade. São esses ingredientes invisíveis adicionais que permitem que sempre possamos preparar e comer bolos, mesmo quando não conseguimos seguir à risca as receitas escritas — como se fosse realmente necessário segui-las à risca. Fazendo assim, seguimos um outro tipo de receita, que não se restringe a uma simples lista de ingredientes e modo de preparo, mas que considera princípios maiores e adjacentes a todas as receitas. A receita das receitas, aquela que é invisível e acaba por governar as visíveis, pressupõe essa compreensão mais ampla e menos formal que tem por objetivo último a experiência de saborear bolos. O fim último das receitas rígidas é, em tese, nos conduzir a comer um gostoso bolo, mas se em algum momento perdemos esse objetivo de vista podemos torná-la uma inimiga de si mesma. No momento em que não permitimos que a receita das receitas se faça presente com as suas intervenções flexíveis, intuitivas e criativas, podemos gerar uma experiência frustrante, apequenada e entristecedora. E, assim, comer bolo já não é tão prazeroso.

 

Conclusão

O que a sabedoria bíblica nos ensina é que embora procuremos formular todo tipo de discurso teológico estruturado tentando dar sentido à vida, ela sempre nos surpreende sendo muito maior e mais complexa do que os nossos discursos. As receitas teológicas, ou aqueles que arriscam fornecer receitas rígidas, devem aprender com a sabedoria. A receita para a vida não é um fim em si mesma; a receita não é maior que a vida; a receita possui um fim maior, que é a própria vida.

Outra coisa que a sabedoria nos ensina é que o sentido da vida é a encontrado no próprio dom da vida. É vivendo que se entende que o sentido da vida é viver e gozar desse dom divino. A vida criada por Deus é grande como ele e incapaz de ser encapsulada por nossos sentidos e raciocínios. Não é o pecado e o sofrimento, e não são as dificuldades e limitações que diminuem o sentido da vida. Todos esses elementos restritivos diminuem a nossa experiência da vida sem, contudo, lhe diminuir o valor. Por isso, lutamos instintivamente pela vida como uma pessoa que busca pelo ar quando está se afogando.

Por fim, a sabedoria nos convida a nos maravilharmos com o belo e o trágico da vida. A desfrutarmos da existência a partir de uma postura aberta, livre, inclusiva, dialógica, construtiva, companheira, cooperativa, compartilhada e, essencialmente, divino-humana.

 

Referências bibliográficas

SELLIN, E. e FOHRER G. Introdução ao Antigo Testamento. Vol. 2. ed. 3. São Paulo: Paulinas, 1977.
VON RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: ASTE/Targumin, 2006.

 

Sobre o autor
Marcos Orison Nunes de Almeida é Doutor em Estudos Interculturais pelo Fuller Theological Seminary/EUA, além de Professor e atual Coordenador da Graduação e Pós-graduação Online da Faculdade Teológica Sul Americana.

Contato com o autor: orison@ftsa.edu.br

Sem comentários

Envie um comentário