O MINISTÉRIO DA DIÁSPORA NA IGREJA DE JERUSALÉM | Por Donald Finley - Revista Práxis Missional
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O MINISTÉRIO DA DIÁSPORA NA IGREJA DE JERUSALÉM | Por Donald Finley

Quando minha esposa Angelina e eu chegamos no Brasil há mais de trinta anos, um processo começou e vem enriquecendo nossas vidas ao longo desta jornada. Percebemos que, ao conhecer a cultura brasileira, aprendemos mais do que uma nova cultura. Descobrimos que, ao mergulhar nesta cultura, começamos a ler e entender a Bíblia sob uma nova perspectiva. Através daquilo que aprendemos na convivência intima com brasileiros, vimos coisas na Bíblia para as quais não havíamos atentado antes.  Não é que trocamos nossa perspectiva norte-americana para uma perspectiva brasileira, mas acrescentamos novas perspectivas, que enriqueceram nosso entendimento da Bíblia e nossa prática cristã.

Nos últimos anos, tivemos uma experiência semelhante. Começamos a ler a Bíblia com um olhar para a diáspora (povos e pessoas em movimento). Começamos a ver pela primeira vez coisas que sempre estavam lá — histórias de como Deus agiu ao longo da história para cumprir seus propósitos através de povos em movimento. Recentemente, li de novo o livro de Atos com esta nova perspectiva e fiquei surpreendido com o que descobri.

Mas não é suficiente encontrar fatos ou perspectivas interessantes. Precisamos fazer a ponte entre o novo entendimento e uma nova prática. No caso do ministério da diáspora, precisamos de uma mudança de perspectiva que nos motive a nos envolver com pessoas em movimento – pessoas que estão vivendo uma realidade de mudanças fundamentais que provocam confusão, questionamento, vulnerabilidade e medo. São momentos em que Deus quer agir com amor, através da igreja, para cumprir seus propósitos para pessoas e povos.

Como vamos ver, o ministério entre a diáspora foi uma parte da vida da igreja desde o início. A seguir, apresentarei três elementos do ministério diáspora que encontramos na igreja de Jerusalém nos primeiros capítulos de Atos.

  1. A igreja testemunhou aos povos da diáspora em Jerusalém

O primeiro elemento do ministério diáspora que encontramos em Atos é a proclamação da comunidade de discípulos no dia de Pentecostes. É significativo notar quem estava presente para ouvir esta proclamação. Logo depois da história de como o Espírito Santo chegou com poder, o texto relata que: “Estavam em Jerusalém judeus piedosos de todas as nações que há debaixo do céu” (At 2.5). Isto é importante, porque no primeiro século, muito mais judeus viveram fora da Palestina do que dentro (Gaventa, 2003, p. 75). Por isso, representantes das várias comunidades da diáspora estavam presentes para ouvir a proclamação de Jesus como o Messias ressurreto de Israel.

A importância de Pentecostes como uma ocasião muito estratégica para esta proclamação é enfatizada pelo fato que dos três principais festivais religiosos do ano (Pascoa, Pentecostes e a Festa dos Tabernáculos), o Pentecostes trazia maiores números de peregrinos da diáspora para a cidade de Jerusalém. Isto foi devido ao fato de Pentecostes ter caído em uma época do ano mais segura para viajar ao Mediterrâneo. Então, a população de Jerusalém, que normalmente era de cinquenta mil habitantes, explodiu para quase um milhão durante Pentecostes (Pierson, 2000, p. 27). O potencial para um impacto grande é evidente.

Este ponto se torna mais importante ainda quando examinamos a lista das origens das várias comunidades de judeus presentes no dia de Pentecostes (At 2.9-11). Estes grupos representam os quatro pontos da bússola, com Jerusalém no centro:

O primeiro grupo começa ao leste de Jerusalém (partos, medos, elamitas e residentes da Mesopotâmia) e então volta para Jerusalém; o segundo grupo vai de Jerusalém para o norte (Capadócia, Ponto, Ásia, Frígia e Panfília) e então de volta em direção a Jerusalém; o terceiro grupo vai de Jerusalém para o oeste ate o norte da África, Roma, e então novamente de volta a Jerusalém através de Creta; e o quarto ponto da bússola é representado pelo coletivo “árabes” (Bauckham, apud. Gaventa, 2003, p. 75).

Lucas não formula esta lista na tentativa de mostrar o crescimento de judaísmo, mas sinalizar “o iminente espalhamento do evangelho” (Gaventa, 2003, p. 75). Em Atos 1.8, Jesus disse aos discípulos que eles seriam as suas testemunhas até os confins da terra; já no capítulo 2, Lucas está sinalizando que os judeus da diáspora também teriam parte em proclamar o evangelho até os confins da terra, levando o evangelho com eles nas suas viagens de volta para casa. “Basta, então, observar que a lista claramente visa ser uma indicação de que estavam presentes pessoas de todas as partes do mundo conhecido, e talvez que haveriam de voltar aos seus próprios países como testemunhas daquilo que acontecia” (Marshall, 1982, p. 71).

Qual é o significado disso? Na providência de Deus, a presença dos judeus da diáspora em Jerusalém no dia de Pentecostes serviu para plantar a semente do evangelho entre eles. Nem todos ficariam em Jerusalém. Enquanto alguns judeus da diáspora viveram em Jerusalém por motivos comerciais ou para viver na velhice (Gaventa, 2003, p. 75), aqueles que estavam presentes como parte de uma peregrinação religiosa e se tornaram discípulos de Jesus levariam o evangelho de volta para casa. No Antigo Testamento, Deus já usou a peregrinação de Abraão e os patriarcas para cumprir seus propósitos; ele usou a peregrinação de Israel no deserto durante o êxodo e o exilio de Judá na Babilônia para cumprir seus propósitos também. Agora, este mesmo Deus usaria as multidões da diáspora para espalhar as boas novas de salvação em Jesus aos quatro cantos do mundo.

Hoje, o ministério com pessoas e povos da diáspora continua como uma estratégia missionária muito importante. Devido às influencias políticas e econômicas de globalização e, também, devido à realidade de fome, conflitos e guerras, vivemos em uma época em que o número de pessoas em movimento está explodindo. A presença das nações entre nós representa uma oportunidade histórica de proclamar e ser boas novas para estes grupos, muitos deles vivendo em um estado de marginalização que provoca uma variedade de crises. E, na providência de Deus, um dia algumas destas pessoas voltarão para seus lares. Se a igreja for fiel na proclamação amorosa do evangelho hoje, elas poderão voltar carregando a semente do evangelho para compartilhar com seus compatriotas.

Além de notar que o evangelho foi proclamado à diáspora, é proveitoso prestar atenção à maneira como ele foi proclamado. Desde o início, a proclamação cristã foi contextualizada. Podemos identificar duas maneiras de como isso foi feito no caso de Pentecostes.

Em primeiro lugar, todos os judeus da diáspora ouviram o evangelho na sua própria língua materna. Existe um debate se isso foi porque os discípulos falaram em todas essas línguas, ou se o milagre foi que os judeus da diáspora ouviram a mensagem (pregada em aramaico) nas suas línguas. Não é meu propósito resolver esse debate aqui, mas é importante notar o fato de que, de uma forma ou outra, a mensagem do evangelho foi comunicada nas línguas maternas dos seus ouvintes.

Isso foi necessário? Depende da perspectiva. As pessoas da diáspora presentes em Jerusalém no Pentecostes falavam grego, e alguns falavam aramaico também. Todos os discípulos palestinos falavam aramaico e, alguns deles, pelo menos um pouco de grego. Houve condições de comunicar através destas duas línguas. Para alguns, isso cria dúvidas sobre a história de um milagre que não foi necessário (Marshall, 1982, p. 70). Se alguns dos discípulos falaram em grego, e alguns da diáspora entenderem em aramaico, onde está a necessidade de um milagre?

Mas esta perspectiva deixa de lado algo importante. Na comunicação do evangelho, a transmissão técnica de palavras não pode ser o alvo. Ao contrário, “o que era importante é que se falavam as várias línguas maternas, vernaculares, destes povos” (Marshall, 1982, p. 70). Como missionários transculturais devem aprender, “mesmo que alguém possa falar duas ou mais línguas, a comunicação que vai falar mais fundo ao seu coração, num nível mais pessoal, é realizada na língua que a pessoa aprendeu no colo da mãe” (Pierson, 2000, p. 30). Para deixar tudo claro, o que estamos afirmando é que desde o início da igreja Deus tem usado as várias línguas — e, por extensão, culturas, porque línguas são produtos e expressões de cultura—como veículos para a comunicação eficaz do evangelho.

Existe uma outra maneira em que a proclamação do evangelho foi contextualizada no dia de Pentecostes para os judeus da diáspora. Podemos entender que contextualização envolve a comunicação fiel, clara e relevante da verdade de Deus ao ponto em que um indivíduo ou cultura mais precisa ser transformada pelo poder do evangelho. O conteúdo da mensagem de Pedro foi altamente relevante naquele contexto judaico. Isso não foi apenas porque Pedro usou o profeta Joel para explicar o fenômeno de línguas; ele também falou sobre a crucificação que aconteceu na Páscoa, apenas cinquenta dias antes. E quando ele acusou seus ouvintes de ter crucificado o Messias, que Deus ressuscitou (At 2.23-24, 31-36), ele não estava falando apenas aos residentes permanentes de Jerusalém. Muitos judeus que vieram em peregrinação para celebrar a Páscoa em Jerusalém ficaram para Pentecostes (Gaventa, 2003, p. 75). Então, os judeus da diáspora eram tão culpados quanto os residentes permanentes de Jerusalém. A pregação de Pedro foi relevante e trouxe convicção para os dois grupos.

Este aspecto da proclamação contextualizada no dia de Pentecostes chama a nossa atenção ao fato de que não podemos realizar um ministério entre grupos da diáspora sem levar em conta suas línguas, culturas e experiências. Da mesma forma que missionários transculturais precisam aprender dos povos hóspedes para comunicar o evangelho, a igreja local trabalhando com povos da diáspora precisa aprender como cruzar as barreiras culturais. Isso exige treinamento para aqueles mais envolvidos neste ministério, além de amor, compreensão e boa vontade da parte de toda a igreja.

  1. A igreja ofereceu comunidade para os judeus da diáspora (At 2.42-47)

Lucas relata que, no dia de Pentecostes, quase três mil pessoas crerem em Jesus e foram batizadas (At 2.41). Deve ser seguro presumir que os novos membros da igreja incluíram tanto judeus palestinos quanto judeus da diáspora, especialmente levando em conta o número de judeus da diáspora presentes em Jerusalém no Pentecostes.

Consequentemente, sabemos que a partir de Pentecostes a igreja de Jerusalém foi uma comunidade multicultural. Como temos visto, os judeus da diáspora vieram a Jerusalém de todo o mundo conhecido. Os lugares do seu exílio eram “tão distintos uns dos outros que quase habitaram em mundos diferentes” (Calvino, 1995, p. 54). A história de como a igreja de Jerusalém criou comunidade no meio desta diversidade e resolveu conflitos baseados em diferenças culturais é não apenas impressionante, mas altamente relevante para a igreja atual, que vive em uma época de pluralismo e globalização.

Um fator principal na união dos vários grupos que se tornaram parte da igreja foi a base que todos compartilharam na verdade das escrituras do Antigo Testamento. Como já notamos, a mensagem de Pedro no dia de Pentecostes teve uma base nas escrituras. Esta ênfase continuou enquanto os membros da igreja “perseveravam no ensino dos apóstolos” (At 2.42), que teria incluído não apenas reflexão nas escrituras à luz de tudo o que Deus fez em Jesus, mas também nos ensinos do próprio Jesus, e na história da sua vida, morte e ressurreição.

Este discipulado aconteceu em dois ambientes principais: no grupo maior no templo e em grupos pequenos onde partiram o pão em casas (At 2.46). Todos os membros da igreja foram livres para participar juntos na adoração de Deus no templo. Foi um lugar onde os judeus da palestina e os judeus da diáspora puderam dar expressão à realidade da sua unidade em Cristo.

Pensando nas reuniões em casa, já temos visto como foi importante para os judeus da diáspora ouvir a proclamação do evangelho na sua língua materna. Nada sugere que houve qualquer segregação artificial ou impedimento contra a comunhão entre os grupos diferentes, mas, como questão prática, faz sentido pensar que o discipulado e comunhão mais íntima nas casas aconteceu onde as pessoas compartilharam a mesma língua e cultura. Assim, os judeus da diáspora participarem integralmente na vida da igreja toda, focalizada nas reuniões no templo, e ao mesmo tempo, tiveram liberdade de aprender e expressar sua fé no contexto de grupos menores da mesma cultura e língua. Tal prática teria representado uma continuação da tradição judaica, na qual todos adoraram a Deus como judeus, mas na sua própria língua (Marshall, 1982, p. 122).

Os grupos reunidos em casas oferecerem comunidade profundamente íntima. A frase “partindo o pão” pode significar ou que eles compartilharam uma refeição, ou que observaram a Ceia do Senhor nas suas reuniões. Mas não é necessário escolher entre as duas opções. Em 1 Coríntios 11, lemos como a igreja de Corinto teve a prática de tomar uma refeição antes de celebrar a Ceia. Neste caso específico, a prática de não compartilhar a refeição uns com os outros representou uma perversão do amor e comunhão cristã e um pecado contra o corpo e sangue do Senhor (1Cor 11.21-22, 27). A prática que foi pervertida pelos coríntios revela que era comum para os cristãos tomar uma refeição em comunidade antes de celebrar a Ceia. O “partir do pão” em Jerusalém bem provavelmente incluiu tanto a prática de tomar uma refeição e de celebrar a Ceia juntos.

A vida em comunidade teve expressão em mais uma forma concreta que é especialmente marcante.  Além da comunhão ao redor da mesa e a dedicação ao ensino dos apóstolos, os cristãos de Jerusalém vendiam suas propriedades e compartilharam os recursos com aqueles que precisavam de ajuda (At 2.45). Tudo indica que esta ajuda foi distribuída para todos os membros necessitados, tanto para irmãos da Palestina quanto da diáspora. Na verdade, a comunhão e a ajuda aos necessitados não podem ser separadas, porque “comunhão diária ao redor da mesa serviu como a fonte principal de comida para os membros mais pobres da igreja” (Yao, 2004, p. 32).

Quando levamos em conta todos os elementos na descrição da comunidade primitiva – a união de todos no ensino da palavra e nas reuniões no templo, a experiência de comunidade nos grupos pequenos reunidos nas casas, e o amor e generosidade dos cristãos com mais recursos compartilhando com os mais pobres – a imagem que temos é de uma comunidade unida, amorosa e íntima. “O significado social deste retrato precisa ser enfatizado. Os cristãos primitivos se reuniram em casas e trataram uns aos outros como família, compartilhando refeições e bens materiais, além do conteúdo mais espiritual e verbal” (Witherington, 1998, p. 161). O retrato fica mais impressionante ainda quando consideramos a natureza inclusiva da igreja, incorporando pessoas do mundo todo dentro da família de fé. O resultado da qualidade de vida da comunidade primitiva foi que a cada dia outras pessoas estavam sendo salvas (At 2.47).

O que podemos aprender da comunhão entre cristãos da palestina e da diáspora no período pós-Pentecostes? Uma coisa é a importância de aceitar discípulos de Jesus que venham de outras culturas como irmãos, celebrando os laços de fé, experiência e compromisso que os unem na família de Deus. Aprendemos também a legitimidade e importância da liberdade que todos nós temos de expressar a nossa fé em maneiras apropriadas para nosso próprio contexto. Devemos rejeitar enfaticamente qualquer preconceito ou impedimento à comunhão entre cristãos de culturas diferentes. Ao mesmo tempo, é importante manter a liberdade para expressões culturalmente apropriadas da nossa fé em contextos diferentes. Igrejas que querem ser usadas no ministério da diáspora precisam abraçar esta unidade em meio à diversidade.

  1. A igreja superou conflitos culturais (Atos 6.1-7)

O retrato da igreja em Jerusalém, que lemos em Atos 2.42-47, tem servido como o ideal procurado por cristãos ao longo da história. Mas a pureza da experiência da comunidade cristã não foi permanente, e problemas surgiram justamente sobre um dos aspectos mais admiráveis da igreja: a maneira com que eles compartilharam seus bens para cuidar uns dos outros. “A prática de juntar propriedade podia ser mantida somente enquanto sua unidade no Espírito foi especialmente ativa; assim que a chama começou a queimar um pouco mais baixo, a tentativa de manter a vida comunal encontrou dificuldades sérias” (Bruce, 1976, p. 81).

Os problemas começaram a aparecer em Atos 5, com a história de Ananias e Safira. Mas em Atos 6.1-7, Lucas relata um incidente mais perigoso ainda para a unidade da igreja. Na abertura do capítulo 6, temos os helenistas – judeus da diáspora que eram parte da igreja em Jerusalém – reclamando porque as viúvas do seu grupo não receberem uma assistência igual na distribuição de comida dada aos membros mais necessitados da igreja. Isso foi especialmente sério por causa do nível de dependência das viúvas helenistas, devido ao fato de que não tiveram acesso à ajuda dos parentes e amigos que deixaram para trás nos seus lugares de origem (Marshall, 1982, p. 123).

É obvio no texto que os judeus da diáspora constituíram um grupo distinto dentro da igreja. Isso colabora com as observações que já fizemos sugerindo que os grupos da diáspora provavelmente realizaram suas reuniões em casas, dividindo na base de línguas e culturas em comum. Esses judeus da diáspora eram integrados na vida da igreja e aceitos como membros da comunidade, mas, ao mesmo tempo, escolherem manter uma identidade distinta.

Estas diferenças culturais serviram, de certa forma, para marginalizar os helenistas. Eles reclamaram que suas viúvas foram negligenciadas na distribuição de comida – uma reclamação que os apóstolos não negaram e Lucas não questionou. Podemos concluir, então, que os judeus da diáspora estavam, de verdade, sofrendo discriminação dentro da comunidade cristã.

A maneira em que os apóstolos agiram diante da crítica foi exemplar. Eles poderiam ter respondido às críticas com algo assim: “Vocês não são daqui, e estão vivendo aproveitando da generosidade daqueles que são nativos. Parem de reclamar. Devem ser gratos quanto ao que recebem. Se não gostam disso, podem voltar para o lugar de onde vieram”. Enquanto esse tipo de resposta seria uma negação da sua fé comum em Jesus, teria sido semelhante ao tipo de sentimentos nacionalistas e tribais que são tão comuns nos dias de hoje.

Mas a discriminação que os helenistas sofreram não parece um resultado de etnocentrismo proposital da parte dos palestinos. Tudo indica que foi uma omissão, algo que os cristãos palestinos nem sabiam que estava acontecendo. Mas isso não é uma desculpa. Muita descriminação acontece mesmo hoje, não porque a maioria quer maltratar os outros, mas porque não consegue ver e entender a realidade dos outros. Foi um ato de “comportamento discriminatório por negligência” que produziu conflito dentro da igreja (Hertig, 2004, p. 63).

Quando os apóstolos tomaram consciência do problema, tiveram iniciativas imediatas para solucioná-lo. Ao invés de defensivos, eles se mostraram abertos às críticas. Mais impressionante ainda, as iniciativas tomadas não representaram simplesmente maneiras em que o grupo dominante podia “ajudar” a minoria de forma mais eficiente. Ao contrário, a igreja indicou um grupo de sete pessoas, todos com nomes gregos, como líderes do novo ministério de assistência. O grupo dominante foi intencional nas suas ações para abrir mão do seu poder e incluir a minoria na liderança da igreja.

Conflitos em situações multiculturais são normais. Uma igreja que se envolve no ministério da diáspora não deve ficar assustada se isso acontecer. Ao contrário, devemos aprender do exemplo da igreja em Jerusalém, evitando qualquer sentimento de etnocentrismo ou postura defensiva. Podemos aprender a ser generosos na maneira com que compartilhamos os bens com os outros e incluir grupos marginalizados dentro da liderança da igreja. Talvez mais importante ainda seja desenvolver a capacidade de realmente “ver” o outro, ficando atentos às suas necessidades e sendo solidários com eles em suas dores. Assim construímos pontes de entendimento e confiança mútua, dando expressão concreta à nossa união em Cristo.

Lucas, no capítulo 6 verso 7 de Atos, relata que, depois deste incidente, a palavra de Deus foi divulgada e que o número de discípulos em Jerusalém cresceu muito. Stott assim comenta: “Mas é claro! A palavra não pode se espalhar quando o ministério da palavra está sendo negligenciado. Por outro lado, quando os pastores se dedicam à palavra, ela se espalha” (Stott, 1990, p. 136).  Por isso, ele afirma, a igreja cresceu.

Não concordo completamente. Obviamente, a palavra não pode ser divulgada de forma adequada sem pessoas com dons e responsabilidades neste ministério dando a dedicação necessária para cumprir sua tarefa. Mas isso não foi o único resultado da história. Não podemos esquecer que, além de liberar os apóstolos para o ministério da palavra, a decisão da igreja também identificou e liberou líderes para o ministério de assistência social.

Em vez de declarar que a igreja cresceu por causa de uma ênfase singular no ministério da palavra (evangelismo e ensino), a conclusão mais apropriada parece ser a de que a igreja cresceu porque a palavra estava sendo proclamada, pessoas necessitadas foram socorridas, e uma igreja plural vivia em relativa harmonia e amor. Em outras palavras, a fé foi proclamada e vivida. Sem os dois elementos juntos, não existem condições para crescimento estável e contínuo.

  1. A diáspora foi chave para disseminar o evangelho

Até agora, temos considerado um aspecto do ministério da diáspora: a igreja local de Jerusalém proclamando o evangelho, discipulando e incluindo judeus da diáspora na sua comunhão diária. Mas, a partir do martírio de Estêvão, a igreja foi espalhada pela perseguição e começou a proclamar o evangelho entre novos grupos e povos. No centro deste movimento encontramos os cristãos judeus da diáspora.

Primeiro, encontramos Filipe, que levou o evangelho aos samaritanos (meio judeus, meio gentios). A legitimidade da evangelização dos samaritanos foi atestada pelos apóstolos Pedro e João, testemunhas oculares quando Deus concedeu o dom do Espírito Santo a eles (At 8.14-17). Logo depois, Filipe foi dirigido pelo Espírito ao pegar na estrada entre Jerusalém e Gaza. Ali, ele encontrou o eunuco etíope, a quem ele proclamou as boas novas de Jesus e o batizou. Depois ele foi para Cesareia, evangelizando ao longo do caminho (At 8.26-40).

Em Atos 11.19-26, lemos que membros da igreja dispersos pela perseguição (se tornando eles também parte da diáspora) levaram o evangelho para judeus em Fenícia, Chipre e Antioquia. Mas alguns, vindo de Chipre e Cirene – judeus da diáspora –proclamaram o evangelho também para os gregos em Antioquia. Barnabé, um outro líder dos judeus helenistas, chegou para encorajar a nova igreja. Logo, ele foi para Tarso em busca de Saulo, um outro discípulo da diáspora, e juntos ensinaram na igreja de Antioquia por mais de um ano. De lá, Barnabé e Saulo foram enviados na sua primeira viagem missionária (At13.1-3), e nela o evangelho foi pregado tanto para os judeus da diáspora quanto para os gentios.

Porque os membros da diáspora foram tão centrais na obra missionária? Witherington (1998, p. 244) afirma que uma leitura de Atos 8-11 sugere que os “hebreus” voltaram para Jerusalém depois da perseguição, mas “muitos, se não a maioria, dos cristãos judeus que falaram grego, que provavelmente vieram da diáspora (…) continuaram indo não apenas até Judeia e Samaria mas até a verdadeira diáspora, inclusive para Antioquia da Síria, como 11.19 ff. sugere”. Os “hebreus” tiveram laços de família, língua e cultura em Jerusalém que a maioria da diáspora não teve.

Os cristãos da diáspora, por sua parte, “nasceram e foram criados em países estrangeiros, e o grego era a sua língua. Em alguns casos, suas famílias tinham vivido fora da Palestina por séculos. Eles eram, com certeza, mais integrados ao mundo dos gentios e um pouco mais abertos à associação com não-judeus” (Pierson, 2000, p. 58). Eles tiveram mais afinidade com a língua franca e com as culturas dos gentios. Por isso, estariam mais confortáveis no mundo dos gentios e, naturalmente, teriam sido comunicadores mais eficazes.

Conclusão

Não podemos negar a importância da fidelidade dos primeiros cristãos que proclamaram as boas novas de Jesus à diáspora em Jerusalém, assim como não podemos deixar de reconhecer a importância dos cristãos da diáspora, que levaram o evangelho para contextos em que a maioria dos cristãos palestinos não podiam imaginar.

Hoje, igrejas locais têm a oportunidade de seguir o exemplo da igreja em Jerusalém de uma forma que não imaginamos antes. A diáspora está aqui, entre nós. Se amarmos nossos novos vizinhos de forma sincera e prática para atender suas necessidades, e, ao mesmo tempo, proclamarmos e ensinarmos o evangelho, só Deus sabe o impacto para o reino que isso pode ter ao longo do tempo. Mas, para que isso ocorra, precisamos de mulheres e homens, jovens e adolescentes, sensíveis à liderança de Deus e prontos para ser usados no ministério diáspora.

Referências bibliográficas

BRUCE, F. F. The Book of the Acts. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1976.

CALVIN, John. Calvin’s New Testament Commentaries: Acts 1-13. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1995.

GAVENTA, Beverly Roberts. Acts. Nashville, Abingdon Press, 2003.

HERTIG, Young Lee. Cross-cultural Mediation: From Exclusion to Inclusion. In: GALLAGHER, Robert L.; HERTIG, Paul (Eds.). Mission in Acts: Ancient Narratives in Contemporary Context. Maryknoll, NY: Orbis Books, 2004.

MARSHALL, I. Howard. Atos: introdução e comentário. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1982.

PIERSON, Paul E.  Atos que contam: fatos que marcaram a igreja de Cristo. Londrina:  Descoberta, 2000.

STOTT, John R. W. A mensagem de Atos: Até os confins da terra. São Paulo: ABU Editora, 1990.

WITHERINGTON III, Ben. The Acts of the Apostles: A Socio-Rhetorical Commentary.  Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1998.

YAO, Santos. Dismantling Social Barriers through Table Fellowship: Acts 2:42-47.  In: GALLAGHER, Robert L.; HERTIG, Paul (Eds.). Mission in Acts: Ancient Narratives in Contemporary Context. Maryknoll, NY: Orbis Books, 2004.

Sobre o autor

 

Donald K. Finley é doutor em Estudos Interculturais pelo Asbury Theological Seminary, Wilmore, KY. Professor da Faculdade Teológica Sul Americana e missionário por mais de 30 anos na Ásia Central e no Brasil.

Contato com o autor: donfinley@ftsa.edu.br

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