Nasce uma Igreja, morre um gigante | Por Sidney Costa - Revista Práxis Missional
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Nasce uma Igreja, morre um gigante | Por Sidney Costa

A ONU tem uma publicação sobre os gigantes que assolam a humanidade, e dentre os 17 maiores desafios a serem vencidos, alguns deles estão relacionados a questões de alma, valores e relacionamento com o próximo.[1] A igreja de Saddleback resume esses desafios em um único ponto e diz que o vazio espiritual é um dos maiores problemas da humanidade.

Não entendo que uma religião resolva esse vazio, mas creio que um encontro e uma conexão com Cristo preencherão o vazio que todo ser humano tem dentro de si. A humanidade precisa conhecer Cristo e ter a oportunidade de um relacionamento com Ele. Mais do que isso, Deus se movimenta no mundo para que todas as pessoas possam se conectar à Ele. Deus está em missão e sua missão é amar e resgatar o homem que Ele criou.

Jesus inicia esse movimento e organiza seus discípulos como a igreja de Cristo. Onde a igreja de Cristo está, desaparece o vazio espiritual. Onde nasce uma igreja, morre um gigante.

A igreja de Cristo é formada por todos aqueles que creem em Jesus com seu coração e confessam com seus lábios. Essa igreja se organiza em comunidades que se tornam ambientes de amor, graça e transformação de vidas. Deus não tem uma missão para essa igreja, mas tem essa igreja para sua missão. Por isso acredito que quando plantamos ou revitalizamos uma comunidade local, estamos estabelecendo o Reino através da igreja e dando a todos a oportunidade de preencher o vazio da alma e uma mudança de mindset que vão derrotar os gigantes da alma.

No contexto brasileiro, a plantação de igrejas foi algo forte na chegada dos protestantes no Brasil, criando um modelo básico de plantação de igrejas que fez com que o Evangelho se espalhasse por todo o País. Esse movimento se esfriou ao longo do tempo, e com o surgimento das igrejas neopentecostais o movimento de plantação é caracterizado por multiplicação de algumas igrejas e seus vários locais, algo parecido como franquias de uma marca.

Nasceram grandes impérios, com líderes carismáticos, redes de televisão, a conversão de milhares de fieis e negativamente muitos escândalos de abuso espiritual e corrupção dentro da igreja. Nos últimos anos, creio que em parte como resposta a essa realidade, ressurge o movimento de plantação de igrejas, e isso tem acontecido através de vários projetos e organizações. Isso é bom e ruim. Bom porque tem muita gente séria envolvida e muitas igrejas saudáveis estão surgindo, mas é ruim porque, se não organizado e bem feito, poderemos estar contribuindo para novos modelos distorcidos de igreja ou novos negócios disfarçados de igrejas.

No passado—e chamo de passado os últimos 50 anos—o processo de plantação de igreja era simplificado e finalizado quando um grupo mínimo de pessoas tinha um prédio, um Pastor responsável e uma condição mínima de se auto sustentar. Essa plantação começava com um ponto de pregação que realizava cultos ao ar livre nos domingos à tarde. O ponto de pregação crescia e se tornava uma congregação que era liderada por um seminarista ou um líder com dons e paixões evangelísticos. Quando atingia um número aproximado de 50 pessoas, a igreja mãe fazia um esforço e comprava um terreno pequeno, construía um prédio, que tinha um salão de culto, algumas salas, uma pequena casa pastoral. Ordenava-se o seminarista, marcava-se um culto de organização, a emancipação era dada e uma nova plantação entrava para os relatórios daquela igreja e para as estatísticas de plantação de igreja. Muitas igrejas existentes hoje começaram assim, mas muitas delas já morreram ou estão agonizando pelos quatro cantos do País.

Há aproximadamente 20 anos surgiram novos modelos eclesiásticos que, dentre as muitas mudanças que propunham, estava a revisão do modelo de plantar igreja e novas ideias para revitalizar as que já existiam através de movimentos chamados de transição. Esse novo modelo de plantação de igreja traz conceitos como iniciar a plantação com um grupo base, ampliar esse grupo através de pequenos grupos, e quando criado um grupo capaz de organizar uma reunião com crianças, uma equipe de louvor e cuidados de pessoas, fazer então o culto público dando início à nova igreja.

Nesse conceito não é importante a aquisição de um lugar, mas a escolha de um local com boa localização, de fácil reconhecimento na cidade e à medida que o grupo cresce, muda-se de lugar ate chegar a um local próprio e coerente com o tamanho que a comunidade está. Novas igrejas surgiram, muitas igrejas tentaram a transição e, algumas das maiores igrejas do País hoje são fruto desses movimentos.

Hoje temos organizações que nasceram para apoiar plantadores. Essas organizações são formadas por igrejas que surgiram nos últimos anos e estão encarando a missão de apoiar novos plantadores que estejam disposto a construir comunidades relevantes e coerentes como nosso tempo.

Em geral esse processo começa com a seleção de líderes e Pastores dispostos a plantar ou revitalizar igrejas. Esses líderes passam por processos de capacitação que compreendem base teológica, eclesiológica, estratégia, vida e teologia pastoral e saem dos treinamentos com um projeto de plantação elaborados. Muitas igrejas estão nascendo assim e tem sido gratificante ver tantos líderes jovens liderando e servindo à Jesus dessa forma.

Vejo também o risco que alguns líderes tem entrado nesse movimento pela motivação errada e acabam se frustrando, pois se alguém não tem a vocação dada por Deus para isso, não existe nenhum curso capaz de preparar um plantador se ele não tiver um chamado específico para isso. Alguns também enxergam na plantação a possibilidade de ter a sua igreja e gerir seus recursos em benefício próprio, como se fossem empreendedores abrindo seu negócio. Isso dá errado, machuca as pessoas e denigre a imagem da igreja de Jesus.

Plantação e revitalização de igreja é um jeito de cumprir e servir na missão de Deus, mas precisa ser feito com temor, amor, responsabilidade, coerência e muito trabalho. Toda plantação deveria ter como alvo estabelecer igrejas cristocêntricas, contextualizadas e engajadas na missão.

Plantar ou revitalizar uma igreja significa identificar um contexto, decodificar os códigos culturais desse lugar e apresentar o Evangelho nesse contexto. A partir desse movimento pessoas serão redimidas pelas palavras de Jesus, suas histórias de vida transformadas e elas se juntam em uma comunidade. Quando isso acontece, nasceu a comunidade e podemos dizer que uma igreja foi plantada ou revitalizada, caso já existisse ali anteriormente, mas ainda não tinha claro esse engajamento na missão.

A plantação passa por um processo de fundamentação teológica e doutrinaria tendo Cristo como centro de tudo, segue pela construção de um grupo de líderes que somaram suas histórias de vida com a motivação de repartir e somar essas histórias com outras pessoas. A eclesiologia é a mais simples possível e baseada no mandamento de Jesus de amar a Deus acima de todas as coisas, amar a si e amar o próximo. Esse mandamento vai se materializar em celebrações cristocêntricas, amorosas e acolhedoras.

Em cuidado pastoral através de discipulado, relacionamentos e aconselhamentos que tragam consolo e direção. E por fim, em manifestações de amor e cuidado com aqueles que ainda não fazem parte da comunidade. Pouco se fala de estrutura, prédio, orçamento, marketing. Essa infraestrutura surge para dar suporte ao grupo e não é criada para formar o grupo. A preocupação do plantador deve ser investir em vidas e levá-las à Cristo. Um plantador deve dedicar-se à construção da igreja e no futuro, se necessário, a igreja construirá um prédio. Prédios servem as pessoas e não ao contrário.

Acredito que uma plantação ou revitalização sólida leva no mínimo quinze anos. Cinco anos para se estabelecer a comunidade e seus paradigmas, cinco para expandir e tornar visível na vida de mais pessoas e mais cinco para a formação de uma liderança que possa continuar cuidando da comunidade, independente do líder que a começou. Todo esse tempo não é garantia de uma plantação perene, pois uma igreja é um corpo vivo, mas certamente minimizara riscos.

Atualmente sou pastor de uma comunidade local e fazemos parte de uma rede de igrejas que tem como alvo apoiar a plantação e revitalização de novas igrejas. Temos em nossa comunidade investido e apoiado plantadores de igreja através de um projeto chamado “Igrejas 21 – Igrejas focadas em Jesus hoje e sempre.” Hoje apoiamos 72 pastores que estão envolvidos em 72 novas plantações ou revitalizações de igreja, de várias denominações, e que são divididos em três turmas de diferentes partes do Brasil e alguns do exterior.

O ponto de conexão é o compromisso de plantar ou revitalizar uma comunidade centrada em Jesus, com eclesiologia simples e funcional e engajada na missão de Deus. A estratégia é: apoiamos o Pastor, apoiamos a comunidade local, para que ambos possam trabalhar para a transformação da cidade.

O apoio pastoral é feito através de amizade, mentoria, compartilhamento de conteúdo e know-how, e suporte na implantação da comunidade. Investimentos no pastor e na sua família de uma maneira simples, sem mecanismo de controle ou filiação, mas com vínculos de amor cristão. São 12 áreas de estudo, duas semanas por ano juntos, contatos semanais ou mensais, dependendo da necessidade e suporte durante 3 anos.

O apoio para a igreja é oferecido com treinamentos locais, intercâmbios e apoio na elaboração de um planejamento estratégico a longo prazo, que tem por objetivo o alcance da cidade onde a igreja está. Participamos, em conjunto com a comunidade local, de ações na cidade para identificar possibilidades e criar conexões da comunidade com as pessoas de fora.

É um projeto bem simples, mas tem sido profundo nos relacionamentos, funcionais e práticos nas atividades e com bons resultados na vida dos pastores e as comunidades que estão liderando. Não é um projeto assistencialista, mas de formação e responsabilidade de quem está liderando. Não é uma rede de igrejas e nem uma franquia. Os participantes não pagam mensalidades e não levam o nome da nossa comunidade. Eles recebem suporte e amor em igualdade, coerência e respeito.

Jesus é a esperança para o Mundo e a igreja é a responsável por levar Jesus ao Mundo. Acredito que as maiores igrejas ainda serão plantadas. Creio que todos os lugares do Mundo são fáceis e ao mesmo tempo difíceis. Fáceis porque Jesus já chegou lá e difíceis porque plantar uma igreja é bastante trabalhoso. O plantador precisa amar primeiro à Cristo, amar um lugar, ter a motivação correta e estar disposto a doar sua vida para que pessoas tenham vida. Plantação de igreja não é um ministério e muito menos um negócio. Plantação de igreja é uma das maneiras que Jesus nos deu para dissipar o mal e estabelecer o Reino da Paz, Graça e Amor.

Você já pensou em fazer isso? Se estiver disposto a enfrentar gigantes com a certeza que vai derrotá-los, plante uma igreja centrada em Jesus e você viverá essa experiência.

[1] Veja https://nacoesunidas.org/conheca-os-novos-17-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-da-onu/. Acesso em: 11 Nov. 2019.

Sobre o autor
Sidney Costa é Pastor Titular da Igreja Batista Memorial de Alphaville/SP, Líder do Projeto Igrejas 21 e Presidente da FOCO (uma organização social baseada em economia compartilhada e gestão colaborativa).
Contato com o autor: sidney@ibmalphaville.org.br

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