A Mordomia do Tempo: que noção de temporalidade tem dominado nossa época? | Por Jonathan Menezes - Revista Práxis Missional
Site da Revista Práxis Missional. Publicação da Faculdade Teológica Sul Americana.
práxis, práxis missional, revista cristã, teologia, educação, ftsa, missão, missão integral, faculdade teológica sul americana,
676
post-template-default,single,single-post,postid-676,single-format-standard,woocommerce-no-js,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,qode_grid_1300,hide_top_bar_on_mobile_header,qode-content-sidebar-responsive,columns-4,qode-theme-ver-14.4,qode-theme-bridge,disabled_footer_bottom,wpb-js-composer js-comp-ver-5.4.7,vc_responsive

A Mordomia do Tempo: que noção de temporalidade tem dominado nossa época? | Por Jonathan Menezes

Introdução: Que reino do tempo?

Há algum tempo atrás, acordei no meio da madrugada assustado e ofegante após uma crise de respiração que deve ter durado uns três segundos, em que a palpitação e a falta de ar se uniram de modo poderoso. O resfriado, do qual tentava me curar, contribuiu de algum modo. Mas existia algo mais em jogo. Lembrei-me naquele momento da canção “Dez pras seis”, da Banda Resgate: “Abro os olhos sobre o mesmo teto todo dia, tudo outra vez. Acordo, um tapa no relógio, a mente está vazia, são dez pras seis”. Logo noto uma diferença importante entre o meu dilema e o do autor da canção: minha mente não está vazia – longe disso – e, em meu relógio, são dez pras três! Eu havia deitado três horas antes, mas acordei num solavanco e de repente me vi pensando de modo acelerado e aparentemente incontrolável.

Em que pensava? Em trabalho! Na próxima estratégia para impulsionar a graduação presencial da faculdade (área que atualmente coordeno); na próxima aula, no artigo que tenho para escrever, na palestra que preciso preparar, nos compromissos de amanhã, no sermão do próximo domingo, e assim por diante. Então percebo que eu havia saído do trabalho às 18:25 do dia anterior, mas minha mente continuou no trabalho até às 3 da manhã!

Percebe-se que essa pequena história é marcada por duas formas de controle do tempo – o tempo do relógio e o tempo do trabalho –, que, por sua vez, respondem a um impulso muito peculiar à nossa época, que é o impulso pelo fazer ou pelo desempenho. “A impaciência do dia governa a noite numa forma vazia”, diz Byung-Chul Han (2016, p. 20), provocando as “noites impacientes da insônia”, como cunhou Adorno.

É como se o tempo em que não estamos fazendo ou produzindo alguma coisa fosse tempo perdido, e pessoas importantes em nosso mundo são pessoas que “não tem tempo a perder”. É o que deu a entender a médica obstetra da minha esposa em uma das consultas em que a acompanhei: “Eu estava no fim de semana passado na chácara, repousando por causa da gripe que me havia abatido, mas logo me senti culpada por não estar fazendo nada e decidi organizar as fichas de minhas pacientes. Organizei tudo, olhe só para isso, e estou muito orgulhosa de mim mesma”.

Ou seja, mesmo em períodos dedicados a repouso, de pausa e de descanso, essa competente profissional não conseguiu ficar sem fazer nada sem se sentir culpada. E o que ela fez? Decidiu trabalhar. Desse modo, citando de novo Han (2016, p. 11), “o trabalho totaliza-se de tal maneira que, para lá do tempo laboral, só resta matar o tempo”. Desaprendemos a lidar com “o tempo que sobra”, pois “não há um tempo que não seja trabalho” e “o trabalho é tempo” (Han, 2016, p. 115). Parar de fazer é, para muitos de nós, sinônimo de deixar de existir. Por essa razão, somos péssimos “mordomos do tempo”, talvez porque o tempo atue como nosso mordomo, ou pior ainda, como nosso algoz. A pergunta é: que tempo? Ou melhor: que “reino do tempo”, para usar a expressão de Abraham Joshua Heschel (2014)?

Não podemos falar de “mordomia do tempo” – termo que, aliás, revela um paradoxo (tenho de reconhecer, mesmo me propondo a falar a respeito aqui), dada a natureza inapreensível e incontrolável do tempo, mesmo que seja só “o meu tempo” – sem antes falar do “reino do tempo”. Sempre que ouço falar em “mordomia do tempo” parece que a questão por detrás é “como posso administrar melhor meu tempo?”, que é uma questão importante, mas não necessariamente a única a ser feita. Mais essencial, hoje, talvez seja perguntar: por que nossa vida no espaço parece andar tanto em descompasso (ou em disritmia) com o tempo? Que tempo é esse? Ou melhor, que noção de temporalidade tem dominado nossa época?

Transição: Uma crise de disritmia temporal

Byung-Chul Han no livro O aroma do tempo, nos ajuda a responder essa pergunta. Aponta, também, um caminho alternativo que se coaduna com a espiritualidade cristã na pós-modernidade (ainda que as principais referências do autor sejam de matriz oriental) – mas pretendo chegar lá no momento apropriado. Segundo ele, a atual crise temporal não passa pela aceleração, ou pelo menos não principalmente, pois “a época da aceleração já ficou para trás” (Han, 2016, p. 9). O problema reside na falta de ritmo, que seria o resultado do balanço entre a aceleração (ou o desempenho) e a demora (ou a contemplação). A tese que defende neste livro, então, é a de que “a crise temporal só será superada no momento em que a vita activa, em plena crise, acolha de novo no seu interior a vita contemplativa” (Han, 2016, p. 11).

A contemplação deveria ser, nesse sentido, a melhor amiga da ação. Mas por que em nossa vita activa parece restar tão pouco “espaço” para a vita contemplativa? Chegaremos a uma possível resposta em breve. Antes, outra pergunta se faz necessária: Quais são as marcas da relação de nossa época com o tempo? Seguirei adiante com algumas diretrizes oferecidas por Byung-Chul Han, procurando estabelecer diálogo também com outros autores que discutiram a questão do tempo, como Étienne Klein, Joan Chittister e Abraham Joshua Heschel.

1. Nossa época é marcada pela aurora da aceleração no tempo

Para iniciar o que quero dizer nos próximos tópicos, parece-me útil recorrer a uma poesia que completa vinte anos em 2019, a canção “Paciência”, de Lenine (1999):

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara
Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência
Será que é tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo para perder
E quem quer saber
A vida é tão rara, tão rara
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei a vida não para a vida não para não
Será que é tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara. (Grifos meus)

A “paciência” da canção é o contraponto humano da desumanização provocada pela violência da aceleração. Parece ser uma forma de protesto contra a dinâmica de um mundo que trocou “paciência” pela pressão da “velocidade” (não gratuitamente, penso eu, o título do álbum de Lenine em que se encontra a canção é “Na Pressão”). Detalhe: na canção, o “tempo” e “o mundo” aceleram e pedem pressa. Diante dessa assertiva tão comum, pergunto: quem acelera? E vou além: qual é a diferença entre dizer “o tempo não para” e “a vida não para”?

“Tempo” é uma expressão utilizada para se referir a um “senhor invisível”, que parece reinar indiferente enquanto passamos por ele em nossa vida no espaço. Não podemos controlá-lo, por mais que tentemos, e, para piorar, somos governados por uma de suas dimensões mais fracas, pois quantificável, que é a cronológica (o tempo do calendário e do relógio). O tempo é um daqueles conceitos que resistem à definição, de modo que só podemos falar dele utilizando-nos de comparações. Como bem coloca Étienne Klein (2019, p. 13), “parece que só se pode dizer o que o tempo é a partir de suas próprias metáforas e imagens, com as quais a história das ideias o vem confundindo”.

Uma dessas imagens é a de que “o tempo passa” ou de que “o tempo foge” (tempus fugit). E é precisamente essa imagem que Klein utiliza tanto como mote quanto como ideia a ser superada em seu livro: não é o tempo que passa, nos diz ele, somos nós é que passamos (e fugimos) no tempo. Pois “se o tempo fugisse ou escapasse tanto quanto acusamos de fazer, ele já teria desaparecido há um bom tempo!” (Klein, 2019, p. 15). Assim, não é “o tempo que acelera e pede pressa”, como sugere a canção. Pois o tempo está entre os poucos “seres” que resistem ao próprio tempo. Brincando com as palavras, o tempo tem todo o tempo do mundo (e do além-mundo). Quem não o tem somos nós. Por isso nós aceleramos, porque a pressa é toda nossa. Perceba que eu disse (no enunciado deste tópico) que nossa época é marcada pelo alvorecer da aceleração no tempo e não do tempo.

Nesse sentido, outra pergunta urge: Por que temos a impressão de que “hoje o tempo voa, amor, escorre pelas mãos, mesmo sem se sentir” – como diz a canção “Tempos modernos” (1982), de Lulu Santos – e passa cada vez mais rápido? Se não é o tempo que passa, como sugere Klein, então não faz sentido dizer que ele “passa mais rápido” hoje do que antigamente. Não foi o tempo que mudou, mas nossa percepção do tempo ou nossa “maneira de senti-lo” (Klein, 2019, p. 53). Isso significa que hoje (em 2019) tendemos a sentir mais a passagem temporal do que, por exemplo, a geração de Lulu Santos tendia a sentir nos anos 1980, quando a aludida canção foi composta. Hoje canta em voz alta o tenor de nossa fugacidade, mas, por falta de discernimento (espiritual inclusive), dizemos que é “o tempo que passa”. E então nós (não o tempo) pedimos pressa e tentamos ou nos permitimos “viver tudo o que há para viver”. Eis paradoxo da aceleração humana no tempo: no anseio por poder “viver tudo”, acabamos, muitas vezes, perdendo a (qualidade da) vida. “Quem tenta viver mais rapidamente acaba também por morrer mais depressa” (Han, 2016, p. 50).

Aqui as ideias de Klein e Han parecem coadunar. Segundo Han (2016, p. 9), “aquilo que experimentamos como aceleração é somente um dos sintomas da dispersão temporal”. O problema, para ele, não se resume na “aceleração” – pois o tempo da aceleração já ficou pra trás (ele o localiza na modernidade) – mas no que ele chama de dissincronia ou a falta de um ritmo ordenador ao “nosso tempo”, o tempo da vida humana no espaço. Tudo o que fazemos parece ser em prol da subsistência de nosso “pequeno eu” em nosso “frágil corpo”. Uma inglória jornada por sinal. Não se deve estranhar, portanto, que o morrer hoje em dia “se torna especialmente difícil”, como diz Han (2016, p. 10): “As pessoas envelhecem se se tornarem maiores”. Mas, convém perguntar: o que significa se tornar maior? Deixarei a resposta para o final.

2. Nossa época é marcada por um tempo atomizado

A narrativa, tal como a concebem a história e os historiadores, existe para dar sentido a um mundo sem sentido. Histórias (enquanto narrativas), como disse Louis Mink, não são vividas, mas contadas. Elas não existem lá fora, isto é, não existem até que o historiador note os acontecimentos e apresente um encadeamento deles por meio de um enredo significativo, com começo, meio e fim. O tempo mítico e o tempo histórico, como entende Han, tinham isso que ele chama de “tensão narrativa” (agora pensando não no texto histórico propriamente, mas na vida), porque a vida tinha ritmo, pausa, repouso, intervalo e recomeço; era possível estabelecer diferença entre sensações provocadas por uma experiência e outra, por um acontecimento e outro; o tempo do trabalho e o tempo de cessar de trabalhar, dando lugar ao não-fazer e ao descanso. Isso é o que, em suma, ele chama de “tempo narrativizado”.

Em nossa época, em contrapartida, “a história cede lugar às informações”, que, por sua vez, não têm “qualquer amplitude ou duração narrativa” (Han, 2016, p. 30). Em seu interior manifesta-se o que ele chama de “tempo atomizado” ou desnarrativizado, em que os significados e sentidos se perdem em miríades de partículas, de fragmentos, em bits e algoritmos. Não há mais lugar para demora, nem para intervalos, pois eles custam caro – mas há, é lógico, quem pague seu preço pela absorção deles em mais tempo de trabalho. Além disso, intervalos causam tédio num mundo repleto de telas, imagens e fontes inesgotáveis de distração e, por isso, cedemos à tentação de viver a atomização do tempo, em que as sensações se sucedem com cada vez mais pressa, de maneira descontínua, fragmentada, vazia de sentido e de experiência.

Assim, voltando à tese do tópico anterior e ao encontro entre Klein e Han,

A falta de articulação forte do tempo dá lugar à sensação de que aquele corre mais rapidamente do que antes. Esta sensação intensifica-se porque os acontecimentos se desprendem depressa uns dos outros, sem deixarem marca profunda, sem chegarem a tornar-se uma experiência. A falta de gravitação faz com que todas as coisas só superficialmente se aflorem. Nada importa. Nada é decisivo. Nada é definitivo. Não há qualquer corte. Quando deixa de ser possível determinar o que tem importância, tudo perde importância. (Han, 2016, p. 38, grifos finais são meus)

O que ele chama de “articulação forte do tempo” é justamente a criação de pausas, intervalos e interrupções que nos permitem vivenciar uma experiência do tempo dotada de sentido e de ritmo. É aquela pausa entre um compromisso e outro, entre uma notícia e outra, entre uma imagem e outra, entre uma conversa ou mensagem e a próxima, que nos permite não apenas individualizar cada experiência, mas refletir sobre, não tomar decisões precipitadas a respeito e aprender com cada uma delas.

Este é o ponto em que Han (2016, p. 39-40) nos convida a pensar no problema da aceleração não como a raiz de todos os males do que ele chama, em outro lugar, de “sociedade do desempenho” (Han, 2017, p. 25).[1] O problema, para ele, não está na rapidez em si, mas na “falta de ritmo” que nos permita equilibrar nossa gestão do tempo entre momentos de aceleração ou rapidez e momentos de lentidão ou demora. Por isso resolvi grifar a última frase da citação acima, pois ela nos conduz ao tema da mordomia do tempo. Minha tese aqui é a de que mordomia do tempo não se trata tanto de administrar o tempo (pessoal e profissional) para atender bem a uma sucessão pragmática de compromissos e, assim, ser engolido pelos excessos da vita activa, mas de conceber-se em um reino do tempo no qual existe lugar para que o ser se desenvolva e, consequentemente, possa distinguir o que tem importância do que não tem (ou tem menos) importância. Pretendo retornar ao ponto na conclusão.

3. Nossa época é marcada por um tempo sem aroma

Com essa ideia, chegamos ao centro da argumentação de Han em O aroma do tempo. O problema da sociedade que tem o desempenho como mola-mestra não é propriamente “falta de tempo”, como tendemos a alegar, mas a vivência de um tempo sem aroma. E o que seria um tempo sem aroma? É um tempo que foi feito para não durar, que perdeu de vista a experiência da durabilidade, da lentidão e da demora sem as quais a vida perde aroma e sabor, pois não pode ser devidamente desfrutada. Comer, rezar, frequentar a igreja, se relacionar, se exercitar, ter prazer, lazer e distração se tornaram práticas fugazes, prestes a se desintegrar em imagens no próximo telegrama instantâneo, mais conhecido como “Instagram”. Com isso, como a leitora já deve ter notado, não estamos mais falando de “tempo” propriamente, mas da experiência humana no tempo.

Uma experiência na qual se elimina a perspectiva espaço-temporal de perto ou longe, de aqui e lá, de agora, daqui a pouco ou depois, uma vez que nossa redenção aos Instagrams e WhatsApps da vida faz com que os intervalos sejam suprimidos “em benefício de uma proximidade e de uma simultaneidade totais. Elimina-se qualquer distância ou lonjura. Trata-se de fazer com que tudo esteja disponível aqui e agora. A instantaneidade se transforma em paixão. Tudo o que não pode se fazer presente não existe” (Han, 2016, p. 53). O ser, diz Han, é “muito mais do que presença” e empobrece um pouco mais cada vez que suprimimos ou limitamos seus momentos de ausência e distância. O fato interessante, que Han não menciona mas dá a entender, é que essa necessidade de estar presente em todos os lugares, mesmo que na forma de um avatar, empobrece justamente a experiência da presença real, de estar aqui, de viver esse momento, nesse lugar, com essas pessoas, com meu ser inteiro e entregue ao agora. Que se encerra em um paradoxo espaço-temporal e existencial: estou aqui, mas também em outros lugares, então realmente não estou aqui; conectado com muitos ao redor do globo, mas incapaz de me conectar com a pessoa que está perto ou diante de mim.[2]

A suposta “falta de tempo” presente na mui repetida frase “não tenho tempo” é, na reflexão heideggeriana de Han, “sintoma de uma existência imprópria”, pois perdeu a capacidade de discernir a época, a vida e o modo como a gerimos. Uma vida pequena, que tende a se degenerar em uma morte pequena, pois não fez uso da capacidade de gestão do tempo a partir de uma reflexão sobre prioridades; ou que, mesmo fazendo, decidiu priorizar menos a vida, menos relacionamentos significativos; em suma, menos o “si-mesmo” e mais a personagem, a representação ou o avatar virtualmente reproduzível. Então, não parece ser “tempo que nos falta pra perceber”, como questiona Lenine. Falta-nos uma percepção transformada do tempo, bem como dos valores que na vida simplesmente não “escorrem pelas mãos”, nem podem ser manipulados sem consequências. O sonambulismo governa os passos de muita gente no tempo dessa sociedade do desempenho. Muitas delas estão acordadas e realizando muitas coisas sem estar realmente despertas.

Conclusão: Por um tempo ritmado e aromatizado

Que solução? Han não se acanha em nos oferecer, mesmo que de modo assistemático (como é típico de seus escritos, ensaísticos pós-modernos), algumas pistas ou caminhos possíveis. Essas pistas são, também, indicações de como “se tornar maior” enquanto se é vivo (como mencionei ao final do segundo tópico). Gostaria de me apropriar delas aqui pensando-as como pistas pastorais sobre a mordomia do tempo em uma sociedade do desempenho.

A primeira pista: diante da tendência de sempre dizer “não tenho tempo para nada”, é preciso, como ato de resistência, dizer “tenho sempre tempo” a fim de não perder a si próprio (Han, 2016, p. 82). Ainda que nossa cronologia e o tempo do relógio sejam escassos, considerando as miríades de atividades que temos de desempenhar, o tempo pode ser utilizado a nosso favor, e a favor da vida, quando decidimos realizar apenas o necessário e valorizar o que realmente importa. Ao invés da fórmula “tenho tempo para tudo”, Eclesiastes, por sua vez, nos ensina outra: “Há um momento certo para tudo, um tempo para cada atividade debaixo do céu” (Ec 3:1, NVT). A mordomia do tempo, assim, pode ser vista menos na submissão (ou reorganização em meio) a uma sucessão cronológica de atividades e acontecimentos, e mais a sobriedade acerca de qual atitude é mais ou menos apropriada para cada momento singularmente vivido.

A segunda pista (na esteira da primeira): diante da tendência de emendar uma sucessão de atividades, sem intervalos nem pausas, é preciso conferir ritmo à vida a fim de que ela recupere o seu aroma. A “correria” – afinal, todos dizemos que a vida “está corrida” – nos impede de ver (e respeitar) que a vida (e cada vida) clama por um ritmo apropriado. Enquanto a compulsão pelo desempenho nos coloca numa corrida cronológica – uma atividade sucede a outra sem “pausas” – a alma grita pelo compasso das estações da vida, o ritmo kairológico, tal como enuncia Eclesiastes. Assim, no compasso do poeta Lenine, podemos cantar: “Enquanto o tempo acelera e pede pressa. Eu me recuso, faço hora, vou na valsa”. Pois sei que “a vida é tão rara”.

A terceira pista: diante da tendência de habitar um reino do tempo no qual predominam a produtividade e o desempenho, é preciso voltar a viver em um reino do tempo em que “a meta não é ter, mas ser; não possuir, mas dar, não controlar, mas partilhar; não submeter, mas estar de acordo” (Heschel, 2014, p. 9). E assim, ainda pensando com Heschel (2014, p. 13), talvez voltar a sentir a “grandeza do que é eterno no tempo”, sabendo que “não é uma coisa que empresta significação a um momento; é o momento que empresta significação às coisas” (releia e pense nessa frase!). Eis o significado moderno do Schabat (ou do sábado) da criação, conforme nos ensina o Antigo Testamento: a santificação não das coisas ou do espaço, mas do tempo, descobrindo dimensões ou relances do eterno em meio às coisas corriqueiras. Significa, como lembra Heschel (2014, p. 66), aprender a “trabalhar com as coisas do espaço, mas estar apaixonado pela eternidade”.

A vida humana flui e passa no espaço-tempo; ela é, segundo Joan Chittister (2017, p. 11), “a bolha de tempo em que nos encontramos e que nós mesmos moldamos”. A mordomia do tempo está, a meu ver, justamente nessa capacidade de tomar as rédeas e aprender a moldar, isto é, a exercitar a capacidade de discernir o essencial do trivial; não a quantidade, mas a qualidade do tempo; em suma, não tanto a funcionalidade (para que serve?), mas o propósito (qual é o sentido?) de todas as coisas. Não se trata de uma simples renúncia da civilização técnica e digital, que pode estar maravilhosamente à serviço da vida, mas, quem sabe, da “obtenção de certo grau de independência em relação a ela” (Heschel, 2014, p. 41). Não o abandono da vita activa, mas o seu devido balanço ou equilíbrio com a vita contemplativa, como propõe Han.

Finalizo com uma importante e pertinente reflexão proposta por Heschel sobre a liberdade (tente aplica-la à sua própria vida na sociedade do desempenho):

Nada é mais difícil de suprimir do que a vontade de ser escravo da sua própria mesquinhez. Elegantemente, incessantemente, silenciosamente, o homem deve lutar por sua liberdade íntima. A liberdade íntima depende de a criatura estar isenta da dominação das coisas, assim como da dominação das pessoas. Há muitos que adquiriram um alto grau de liberdade política e social, mas pouquíssimos apenas não estão escravizados às coisas. Este é o nosso constante problema – como viver com pessoas e permanecer livre, como viver com coisas e permanecer independente. (Heschel, 2014, p. 115)

[1] Para saber mais sobre o tema, veja o artigo de André Luís Borges também publicado neste número.

[2] Agradeço a Rob Bell por esse insight. Recomendo que você escute seu Robcast, podcast disponível nas melhores plataformas digitais. Mas especialmente uma série, de três episódios, chamada “A brief guide to the undernet”. Devo muito de minha atual atitude em relação ao mundo digital, pelo qual perambulo cada vez mais sem grandes pretensões, ao que aprendi com Rob escutando esta série.

Sobre o autor
Jonathan Menezes é Doutor em História pela UNESP/Assis, Professor da Faculdade Teológica Sul Americana e Editor-chefe da Práxis Missional.
Contato com o autor: jonathan@ftsa.edu.br

 

Referências bibliográficas
CHITTISTER, Joan. Para tudo há um tempo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.
_________. O aroma do tempo. Um ensaio filosófico sobre a arte da demora. Lisboa: Relógio D’Água, 2016.
HESCHEL, Abraham Joshua. O Schabat: seu significado para o homem moderno. 2 a ed. São Paulo: Perspectiva, 2014.
KLEIN, Étienne. O tempo que passa (?). São Paulo: Editora 34, 2019.

Discografia
LENINE. Paciência. Faixa 3. Álbum: Na Pressão. Sony BMG, 1999.
LULU Santos. Tempos Modernos. Faixa 1. Álbum: Tempos Modernos. WEA, 1982.

Sem comentários

Envie um comentário